Um olhar sobre a Mística Cristã no século XXI « Instituto Teológico Franciscano
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Destaques, Notícias - 22/01/2016

Um olhar sobre a Mística Cristã no século XXI

 

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Introdução

O presente ensaio almeja lançar um olhar sobre as principais noções que norteiam a temática da mística cristã. O trabalho não tem a pretensão de esgotar o assunto em si mesmo, mas procura fazer uma síntese das principais características da experiência mística. É um estudo que parte das seguintes questões: O que é mística? Quem são os místicos? O que é experiência mística? O que significa mística de olhos abertos? Qual a relação entre mística e religião?

No século XXI, o interesse pela mística vai muito além das pesquisas feitas no campo das Ciências da Religião e da Teologia. Hoje, de modo geral, as ciências humanas têm despertado um crescente interesse pela mística. No Ocidente, a imagem da mística foi desvirtuada. Tudo aquilo que nos primórdios do Iluminismo, entre os séculos XVII e XVIII, passou a ser considerado um caminho irracional e suspeito, hoje volta a ser buscado por muitas pessoas, que veem na mística o caminho da experiência de Deus, da expansão da consciência e da unidade com todo o cosmos. Por isso, diz-se com frequência que a mística está de volta. O teólogo do século XX Karl Rahner fez uma afirmação muito acertada em torno da mística. Ele disse: “O cristianismo do futuro será místico. Caso contrário deixará de existir” (Grün, 2012, p. 8). “Místico” para Rahner não é alguém com características extraordinárias, mas o cristão, que na sua vida faz uma experiência pessoal da fé cristã.

O ser humano do século XXI não só anseia por dinheiro, fama e sucesso. Ele tem sede do transcendente, de algo mais consistente que dê um verdadeiro sentido à sua existência. Dentro das profundidades humanas há um desejo pelo sagrado e porque não dizer, por uma mística que aponte para algo maior. E por que será? Porque o desejo de união com o Outro transcendente na imanência, que se chama Deus ou amor infinito, dá um sentido brilhante à vida, ao transformar a vida do ser humano. A verdadeira mística causa uma transformação interior. Se ela não proporciona uma mudança radical, isto é, a conversão no modo de pensar, sentir e perceber a realidade é uma pseudo-mística.

No mundo hodierno percebe-se que a mística costuma ser entendida como um grande anseio por sensações de êxtase, repouso, visões etc. “Arrebatamento, êxtase, visões não são o objetivo da mística. Isso tudo é apenas passagem” (Jäger, 2009, p. 71). A pessoa mística não é irracional. Ela conhece bem o binômio: mística versus razão. Esse binômio vai direcionar seu aprofundamento do mistério de Deus revelado em Jesus de Nazaré. Portanto, numa época em que os seres humanos se tornam cada vez mais desenraizados, eles anseiam pela busca sincera de experiências que sejam capazes de fortalecer suas próprias raízes.

Este texto parte do pressuposto de que todas as religiões do mundo têm sua mística, ou melhor, todas fazem de alguma forma a experiência do mistério insondável. Porém, ele volta o olhar especificamente para a mística cristã. No cristianismo a história da mística começa com Jesus de Nazaré. Ele viveu profundamente a mística do amor e da unidade com seu Abbá, Pai (Gl 4,6) O Evangelho místico, isto é, o quarto Evangelho traduz essa experiência com estas palavras: “para que todos sejam um, como tu, Pai, estás em mim e eu em ti” (Jo 17,21).

Assim, somente no diálogo sincero e verdadeiro com outras religiões deve-se compreender as diferenças como cada uma concebe a experiência do mistério. A forma como cada religião interpreta sua experiência é singular. Quem faz uma leitura da Bíblia isento de ideias preconcebidas irá se defrontar com o anseio pela experiência mística. Moisés, diante da sarça que não se consome, é um modelo de experiência do Transcendente vivida no cotidiano da vida (Ex 3,1-6). A experiência pessoal do líder do povo hebreu é exemplo de como o mistério divino é revelado no contexto de cada pessoa. E como cada ser humano acolhe a revelação desse mistério em sua história.

O que é mística?

Muito já se falou da mística, mas a pergunta permanece: o que é esse fenômeno que convencionou-se chamar de mística ou vida no Espírito? Segundo Anselm Grün a palavra mística é de origem grega e significava iniciação nos mistérios. Grün vai à raiz do termo e diz:

Mística vem do grego mystikos, derivado dos verbos myo (fechar os olhos e boca, para gerar um mistério internamente e myeo (penetrar no mistério). Entre os gregos, “mística significava, a princípio, a iniciação nos mistérios, na qual uma pessoa se unificava com o destino da divindade e passava a participar do poder divino”. (Grün, 2011, p. 9).

      A ideia correta da mística é pouco nítida para muitas pessoas. A maioria entende como algo que não se limita à crença em Deus, mas atinge a vivência de Deus. Muitos relacionam a mística com experiências exóticas, a saber: visões, dom de línguas, revelações particulares, expansão da consciência ou êxtase. Para outros, a mística é a busca por atingir, através do contato existencial, o inatingível: Deus. A mística cristã é fazer a experiência do mistério de Cristo no hoje da história. E esse mistério de Cristo se prolonga na vida dos pobres e sofredores. Não existe mística cristã descontextualizada da vida daqueles que mais sofrem. O verdadeiro místico não se esconde do mundo. Ele está no coração do mundo testemunhando o sentido da vida que prevalece ante os sinais de morte. O místico não é um ser vegetativo, mas profundamente ativo e contemplativo.

      O pesquisador das religiões José Luis Vázquez Borau traz, no conjunto de suas pesquisas, contribuições importantes no campo da mística cristã. Ele acentua:

A palavra mystica foi introduzida no cristianismo por um monge siríaco, um neoplatônico cristão que viveu entre o século V e o início do século VI, e que escreveu vários tratados teológicos, entre os quais um intitulado De Mystica Theologia, dedicado a Timóteo, discípulo de Paulo de Tarso, assinado por Dionísio o Areopagita (Vazquez Borau, 2002, p. 18)

A palavra mística remete a mistério. O que é o mistério? “As tradições ocidentais o chamaram de mysterion, que não quer dizer nem enigma, nem incógnita” (Panikkar, 2007, p. 39). O mistério divino é indizível e nenhuma expressão humana pode descrevê-lo. Mistério não é o limite do conhecimento como muitos imaginam. Ele é apenas o ilimitado do conhecimento. Mas nem por isso o ser humano deve deixar de buscá-lo. Entrar em comunhão profunda com toda a realidade envolvente, ou seja, ir para além de qualquer horizonte é fazer a experiência do mistério. O mistério no cristianismo é uma busca que perpassa toda a vida do crente. Nesse sentido, “o ser humano, cada ser humano, é uma participação, uma imagem, um mistério de Deus” (Panikar, 2007, p. 136). O mistério mantém o ser humano sempre na admiração até ao fascínio, na surpresa até a exaltação. Quando se chega a esse nível nada mais resta a não ser o silêncio, a reverência e a adoração.

Nessa perspectiva, a mística significa, então, a capacidade de se comover diante do mistério inefável. Não é pensar as coisas, mas sentir as coisas tão profundamente a ponto de perceber o mistério fascinante que habita a interioridade. A mística revela a profundidade de sua significação, quando capta o elo misterioso que une e re-une, liga e re-liga todas as coisas num todo organizado e dinâmico. A mística cristã possui algum segredo? Qual é este segredo? Thomas Merton diz: “Mas o segredo da mística cristã é que realiza a si mesma pelo amor desinteressado aos outros” (Merton, 2006, p. 22). Em Merton a mística é amor e compaixão. Para ele nenhuma mística é autêntica se não se converter verdadeiramente em compaixão. Ter compaixão é ser capaz de estar com o outro, sair de si, sofrer com o outro. É ser movido por um amor desinteressado.

Para Bernard McGinn, professor na Universidade de Chicago e exímio estudioso da mística, há um interesse significativo pela centralidade da mística hoje. Ele comenta que:

As últimas duas décadas testemunharam um ressurgimento notável no interesse pelo estudo e prática da espiritualidade cristã, especialmente na mística tradicionalmente compreendida como o ápice do caminho espiritual. (…) Tanto do ponto de vista especificamente cristão quanto ecumênico, a mística é um tema central hoje em dia (McGinn, 2012, p. 11).

Esse interesse pela mística extrapola o âmbito da religião. A mística é objeto de estudo também das diversas ciências humanas. Por quê? Porque a mística cristã não é uma experiência de reclusão à solidão da oração de um mosteiro ou vida contemplativa. Ela é um dinamismo interno e externo de toda ação solidária e compassiva. “Mística não significa além de Deus e do mundo. Mística é Deus e mundo, uma unidade indivisível. Com isso, a tensão entre os dois polos não fica neutralizada” (Jäger, 2009, p. 70). Assim a mística é um conceito fundamental do cristianismo, como de toda religião que admite o mistério e, também de correntes de pensamento que aceitam a existência do mistério como componente da realidade absoluta. Para os cristãos, a mística tem total originalidade, pois o centro absoluto deste conceito não é uma escola ou um pensamento, mas Jesus de Nazaré. Em Jesus se dá o acontecimento místico absoluto porque nele se realiza a total união e comunhão entre Deus e o ser humano.

Com muito acerto o teólogo católico Leonardo Boff ao refletir sobre a dimensão mística da vida cristã afirma:

Mística não é, portanto, pensar sobre Deus, mas sentir Deus em todo o ser. Mística não é falar sobre Deus, mas falar a Deus e entrar em comunhão com Deus. Quando rezamos, falamos com Deus. Quando meditamos, Deus fala conosco. Viver esta dimensão no cotidiano é cultivar a mística (Boff, 2009, p. 54).

Boff compreende a mística não como um pensar sobre Deus, mas como um sentir Deus em todo ser. A visão franciscana diz que Deus está presente em tudo. Todas as criaturas estão impregnadas da presença do Criador. A mística não é produto do pensamento, mas é algo que envolve o sentimento na sua inteireza. Por outro lado, a mística não consiste em falar sobre Deus, mas falar a Ele e viver na eterna comunhão com Ele. Viver a eterna comunhão com Deus é a meta da mística cristã. Essa experiência do falar a Deus é vivida, sobretudo, no espírito da oração e da meditação, onde se fala com Deus e Deus fala com a pessoa que a ele se dirige.

Fica claro que a mística é uma experiência de unidade cultivada no dia a dia. Não é algo extraordinário que somente algumas pessoas podem fazer esta experiência. Diante disso, surge um questionamento: Hoje, o ambiente cotidiano facilita o cultivo da experiência mística? Fazer a experiência do mistério de Deus em meio às situações diárias é sem dúvida um grande desafio. O ruído, a TV, o Rádio, as Redes Sociais e ocupações não oferecem um ambiente adequado para que as pessoas possam ter um contato mais profundo com a Fonte de onde emana o mistério insondável.

A mística não é um privilégio de poucos escolhidos, mas sim a característica humana por excelência. Ela é “a experiência da Vida”. É algo que chega a envolver “a experiência integral da Vida” (Panikkar, 2010, p. 12-14). Para o estudioso das religiões Raimon Panikkar o termo vida, nessas definições, deve ser entendido no sentido de existência e pertence a todo ser também material. Vida e realidade se correspondem. “A vida é um constante dinamismo, como também o é a experiência do divino, a contínua divinização da experiência do real” (Panikkar, 2007, p. 147). Pode-se dizer que a mística é a experiência concreta da vida, não só a vida do além, mas esta vida.

Na visão de Panikkar, a experiência mística envolve toda a realidade, mantendo-se aberta a todos os problemas humanos. Ele concebe a mística como experiência que acontece na historicidade do ser humano. É uma experiência que integra todas as dimensões da vida. Para ele a mística é uma experiência onde nada fica de fora. Ela contempla a existência toda da pessoa envolta do mistério. Mística é uma experiência integradora da vida de uma pessoa. Essa mística, como experiência integradora, parece indicar caminhos de superação de uma mística fragmentada, exótica e até mesmo desenraizada na atualidade.

Na contemporaneidade o ser humano perdeu esse senso místico da existência, fixando-se na superficialidade. Urge recuperá-lo, como dimensão do profundo que dá sentido à vida humana. A mística não implica uma fuga do mundo (fuga mundi), ou desprezo das realidades terrestres, mas um mergulho ainda mais fundo nas entranhas da realidade para ser capaz de captar os sinais dos tempos. Trata-se de uma experiência pessoal, mas não individualista e egocêntrica.

Anselm Grün, monge beneditino e estudioso da espiritualidade contemporânea diz que:

O jesuíta Anthony de Mello disse certa vez: A mística não significa apenas indagar “Quem é Deus?”, mas também perguntar: “Quem sou eu mesmo?” Quando eu faço repetidamente a pergunta “Quem sou eu?”, essa pergunta me leva também, finalmente, a Deus, razão de minha vida (Grün, 2012, p. 21).

Antes do místico se debruçar sobre a pergunta pelo Absoluto de sua vida ele pergunta pela sua existência real. Se a pergunta “Quem eu sou” ficar jogada nas margens do esquecimento, a experiência mística pode se torna pura alienação com a realidade onde o místico atua. A pergunta pelo divino e pelo humano são as bases para a construção de uma sólida e verdadeira experiência mística. Na mística, divino e humano se entrelaçam.

Quem são os místicos?

Quando se fala hoje em mística muitos pensam logo em claustros, monges, silêncio, penitência, jejum, olhos fechados, ambiente sagrado e fechado onde se anda calma e lentamente, longe do mundo barulhento. Essa é a primeira ideia que passa pela cabeça de muitas pessoas. Mas a figura dos místicos contemporâneos aponta caminhos sempre novos e diferentes. Basta por exemplo pensar em Madre Teresa de Calcutá, Thomas Merton, Dom Helder Camara, Irmã Dorothy Stang e tantos outros. São figuras no coração do mundo testemunhando o amor e a compaixão sem deixarem a sua condição de místicos contemplativos. Neles há uma integração entre mística e ação transformadora. Suas vidas foram sem dúvida uma síntese entre ação e contemplação. Na experiência mística não existe dualismo entre ação e contemplação. São como que duas asas que equilibram o itinerário místico.

Mas afinal quem são os místicos e místicas da atualidade, ou melhor, do século XXI?

São pessoas que descobriram a dimensão do sublime, isto é, do sagrado em Deus, nos seres humanos e em toda criação.

Getúlio Antônio Bertelli, estudioso do místico Thomas Merton, tenta definir o místico nestes termos:

Místico é alguém que penetrou na interioridade (en-stasis) a fim de descobrir o próprio centro, vencendo a ilusão e a dispersão existencial, a superficialidade e o anseio consumista. Só assim é possível sair de si (ex-stasis) e desprender-se na abertura ao outro em compaixão (Bertelli, 2008, p. 17-18).

A compaixão é critério para verificar a autenticidade da mística, e esta é a alma daquela. Ainda que a mística seja inefável, o místico fala, dialoga consigo mesmo e com a realidade vigente. Partindo de sua experiência pessoal Merton diz: “Os místicos de todas as épocas buscaram e encontraram não apenas a unificação do próprio ser ou a união com Deus, mas a união entre si mesmos no espírito de Deus” (Merton, 2004, p. 18). Místico é alguém que saiu da casca da superficialidade se adentrou para a seiva da interioridade para descobrir o seu tesouro, ou seja, seu núcleo essencial. O primado de toda a mística cristã consiste na unificação com o Espírito de Deus e consigo mesmo. Este é o grande trabalho do místico. Voltar-se para si, mas não permanecer em si. Nessa unidade de corpo-mente-coração, reconciliado consigo e com o mundo.

A pessoa mística é aquela que sabe ler e reler os sinais dos tempos sem usar “lupa” ou “binóculos”. O teólogo Salvador Valadez Fuentes argumenta que: “Os místicos são pessoas com uma sensibilidade extraordinária para “ver”, contemplar e saborear a presença do mistério em todos os momentos da vida” (Valadez Fuentes, 2008, p. 128). Os místicos de todos os tempos possuem uma sensibilidade extraordinária para ver, contemplar e saborear a presença do inominável. Esses místicos não estão propriamente em conventos, mosteiros, mas nas ruas e praças das grandes e pequenas cidades.

Os místicos são pessoas de visão ampla e nítida. Nessa visão de inteireza perfazem toda sua experiência espiritual. Os místicos são contemplativos em ação. São capazes de saborear a doçura do mistério mesmo em meio às amarguras do tempo presente. Como identificar os místicos de hoje? No tripé: “ver”, “contemplar”, e “saborear” é possível identificar os místicos de hoje.

Assim, um místico não pode ser confundido com um delirante ou esquizofrênico. Thomas Merton define o místico da seguinte forma: “O ‘místico’ é simplesmente o ser humano ‘espiritual’ no sentido mais pleno da palavra ‘espiritual’ (pneumatikós)” (Merton, 2006, p. 36). Ele é capaz de ver, isto é, perceber o que acontece consigo e com o mundo que o circunda. Ele é um homem ou mulher que olha o mundo com os olhos de Deus. Não despreza o mundo porque este é mau e perverso. Mesmo sem negar as adversidades e contrariedades da vida ele é capaz de degustar da vida e de tudo o que ela tem de bom e belo. Os místicos não são pessoas alienadas da realidade onde estão situados. Vivem no coração do mundo sem serem submergidos pelas forças de destruição do mundo.

Segundo Faustino Teixeira, pesquisador da mística no Brasil, os místicos são pessoas próximas, isto é, pessoas que vivem uma profunda relação de intimidade com Deus. Ele diz:

Os místicos são os “amigos de Deus”, sem os quais é muito difícil manter a secreta mirada que acessa o senso da “delicadeza espiritual”, que possibilita o real “encontro com o mistério dentro e além das coisas e das ideias. (…)] Os místicos são testemunhas de um grande e decisivo encontro que transformou suas vidas (Teixeira, 2006, p. 8).

     A amizade é uma experiência de intimidade recíproca. Os místicos cultivam essa amizade com Deus por meio da oração, do silêncio e da compaixão. No contínuo diálogo amigável o místico vai adentrando sempre mais no mistério de Deus. Para tornar-se um com Ele. O fruto do cultivo dessa relação de amizade com Deus é vivenciado na relação de alteridade com as pessoas no cotidiano.

Experiência mística

O místico pode parecer um grande solitário, mas não é um isolado. Está em comunhão viva com o mistério divino e toda a criação. A experiência é o lugar da mística, só pela experiência ela pode florescer. Segundo Anselm Grün “todos os místicos são unânimes em dizer que a iluminação não pode ser forçada, nem através da oração nem de nenhum método de meditação. Ela é sempre um presente da graça” (Grün, 2001, p. 230). A experiência de iluminação interior não pode ser induzida. Ela é manifestação da graça de Deus que age livremente na pessoa. Nenhum método ou técnica pode levar uma pessoa a fazer a experiência mística. A iluminação, a experiência do mistério, em última análise, é um presente dado gratuitamente por Deus.

Para Bernard McGinn, professor na Universidade de Chicago, entre as muitas tentativas de definições da mística, ele prefere fornecer um sentido de como ele próprio entende o termo ao discuti-lo em três tópicos, a saber: “mística como parte ou elemento da religião, mística como um processo ou modo de vida e mística como uma tentativa de expressar uma consciência direta da presença de Deus” (McGinn, 2012, p. 16). A compreensão de McGinn da mística é clara e sistematizada. Em primeiro lugar, ela diz respeito à religião como parte ou elemento da mesma. Em segundo lugar, a mística é um processo ou modo de vida e, finalmente, mística como uma tentativa de expressar uma consciência da presença de Deus. A experiência mística transforma profundamente a vida dos seres humanos e é a partir dela que eles podem testemunhar, ensinar e escrever.

Bernard McGinn em seus estudos deixa claro o que faz parte especificamente do elemento místico no cristianismo. Em sua argumentação diz:

Assim nós podemos dizer que o elemento místico no cristianismo é aquela parte de sua crença e suas práticas que concernem à preparação para a consciência de e a reação ante aquilo que pode ser descrito como a imediata ou direta presença de Deus (McGinn, 2012, p. 18).

      McGinn não diz nenhuma novidade quando afirma que o elemento místico no cristianismo envolve a crença e suas práticas. Tudo isso como preparação para a experiência imediata ou direta da presença de Deus. A crença e as práticas proporcionam a iluminação imediata ou direta da experiência mística. A crença e prática são facilitadoras dessa experiência de iluminação interior.

      Raimon Panikkar em sua busca de compreender o fenômeno da mística procurou apresentar as possibilidades de uma mística concreta e experienciada. Ele compreende a mística essencialmente como experiência. Ele faz uma elucidação clara entre experiência e reflexão. Segundo ele “a experiência da Vida equivale à experiência de Deus. Dizemos experiência e não reflexão sobre a vida” (Panikkar, 2007, p. 226). Não como usualmente se pode pensar o místico como aquele alienado da realidade, dos sofrimentos do mundo, mas como aquele que está completamente implicado com essa realidade.

Os estudos de McGinn são um grande esforço de não fazer da mística, ou melhor, da experiência mística algo banal, exótico, ilusório etc. Ele conhece a tradição mística cristã e com essa tradição fundamenta suas buscas. Sua posição fica evidente ao afirmar que:

O termo experiência mística, consciente ou inconscientemente, também tende a colocar ênfase em estados alterados especiais – visões, locuções, êxtases, e similares – que admita-se, têm tido um papel importante na mística, mas que, como muitos místicos já insistiram, não constituem a essência do encontro com Deus. Muitos dos maiores místicos cristãos (pensem em Orígenes, Mestre Eckhart e João da Cruz) foram radicalmente hostis a tais experiências, enfatizando, ao contrário, o novo nível de atenção, a consciência especial e mais elevada, envolvendo tanto o amor quanto o conhecimento, que é dado no encontro místico (McGinn, 2012, p. 19).

Assim, a principal questão é a inserção da mística no cotidiano, em plena secularidade, onde o místico, não se deixa aprisionar por nenhuma circunstância ou estrutura opressora. Ele não é escravo do mundo exterior, assim como não faz tragédia de nenhuma calamidade, mas vive e atua com plena liberdade e lucidez.

Mística de olhos abertos

O que se entende por mística de olhos abertos? O teólogo alemão contemporâneo, Johann-Baptist Metz acredita que a mística que se revela no judeu-cristianismo é uma mística de olhos abertos. Diz ele:

A experiência de Deus inspirada biblicamente não é uma mística de olhos fechados, mas sim uma mística de olhos abertos; não é uma percepção relacionada unicamente conosco mesmos, mas sim uma percepção intensificada do sofrimento alheio (Metz, 1996, p. 26).

A experiência mística não consiste tanto em ter visões excepcionais; consiste em ter uma visão nova de toda a realidade, descobrindo Deus como sua última verdade, como seu fundamento vivo, atuante e sempre novo no seio do universo.

Para Benjamin Gonzalez Buelta os místicos de olhos abertos não são aqueles que têm visões estranhas que beiram a patologia, e sim os que experimentam uma visão nova da realidade muitas vezes percebida apenas como caos sem solução. Ele certifica que os místicos de olhos abertos possuem a sabedoria do olhar. Enfatiza ele:

Diferentemente o “místico de olhos abertos”, abre bem os olhos para perceber toda a realidade, porque sabe que a última dimensão de todo o real está habitada por alguém, por Deus. Relaciona-se com o mundo, dando-se conta dos sinais de Deus que enchem toda a Criação com sua ação incessante, com sua fascinante criatividade sem fim. A paixão da vida do místico é olhar, e não se cansa de contemplar a vida porque busca nela o rosto de Deus. Mergulha nas situações humanas, dilaceradas ou felizes, procurando essa presença de Deus que atua dando vida e liberdade (Gonzalez Buelta, 2012, p. 57)

Para Buelta o místico tem os olhos abertos e voltados para o mundo. Ele não coloca venda para não ver as injustiças, a fome, a exploração, a corrupção que circula ao seu redor. Ele coloca em evidência que a grande paixão da vida do místico é olhar ou, dizendo de outra forma, é contemplar. Conhecedor da mística inaciana que preza pelo “ver Deus em todas as coisas” Buelta aponta para, a dimensão do ver para não perecer. A mística do olhar amoroso e compassivo. Basta recordar Francisco de Assis que via em cada ser ínfimo do universo a presença do Criador.

     A mística de olhos abertos não distrai dos afazeres cotidianos, sejam quais forem eles. O místico é uma pessoa profundamente encarnada na realidade. Possui um olhar lúcido sobre o que contempla. O místico de olhos abertos possui uma grande sensibilidade diante do pecado social e todas as formas de injustiça que fere a integridade das pessoas e de toda criação. No místico de olhos abertos nasce um novo coração mais compassivo e misericordioso. E por fim, o místico de olhos abertos é solidário com todos os que sofrem.

Segundo Escolástica e a Teologia Clássica a mística é “Fides occulata”, uma fé dotada de olhos, uma fé iluminada porque pode ver a realidade à luz de Deus (Panikkar, 2005, p. 53). A fé necessita de olhos para ver. Caso contrário é cega e alienada do resto da realidade. A fé que vê é iluminada, é capaz de ver o real, o concreto à luz de Deus. Esta afirmação que vem da Escolástica e da Teologia Clássica se aproxima da concepção de uma mística de olhos abertos tão bem formulada por Johann-Baptist Metz e Benjamin Gonzalez Buelta.

A mística cristã pelo fato de ser histórica direciona-se pelo seguimento de Jesus. “Dessa forma, a ‘vida mística’ significa a ‘vida cristã’, desde que ela se torne o vivido do Amor de Deus que toca o ser humano e do qual o homem deve estar perfeitamente consciente” (Evdokimov, 2007, p. 41). Tal propósito implica um compromisso de solidariedade para com os pobres, pois Jesus se sentou entre eles e pessoalmente optou pelos marginalizados das estradas, do campo e das praças das cidades. Implica um compromisso de transformação pessoal e social, presente na utopia pregada por Jesus, do Reino de Deus que começa a realizar-se na justiça dos pobres e a partir daí para todos e para toda a criação.

A mística não é e nem pode ser uma simples evasão, uma pura negação, uma fuga do mundo em face do sofrimento e da crise que atinge o ser humano. Thomas Merton mesmo vivendo em uma clausura monástica não perdeu esta capacidade de indignação frente às realidades conturbadas do mundo em que vivia. Ele dizia:

E, no entanto, sustento que a vida contemplativa do cristão não é uma vida de abstração, de recesso, que o concentre apenas nas essências ideais, nos valores absolutos, na exclusiva eternidade. O cristianismo não pode rejeitar a história. Não pode ser uma negação do tempo (Merton, 1966, p. 8).

Se a mística do seguimento de Jesus Cristo é histórica e de mãos unidas com a ação, a mística crístico-espiritual é de olhos abertos e cósmica. No século XXI corre-se o perigo da mística cair no mundo do subjetivismo desenfreado. Nesse subjetivismo intimista o cristão acaba fechando os olhos para não ver o que acontece no mundo. Esse subjetivismo está muito presente naquele tipo de oração em que o fiel diz: “Feche seus olhos e esqueça os problemas que acontecem lá fora. Distancie-se dessa realidade agora. Coloque-se na presença de Deus”. Nesse tipo de oração a vida foi excluída do contexto espiritual. Os místicos dizem que a experiência do mistério de Deus é “ad intra e ad extra”, ou seja, é um movimento para dentro e para fora.

Assim a mística cristã não é um perder-se em si mesmo. Ela lança o desafio de contribuir para uma sociedade mais justa, fraterna e solidária. Nesse sentido, a mística possui uma dimensão político-libertadora-contemplativa. O místico do século XXI trilha tendo presente esta tríplice vertente.

 

Mística e religião

Bernard McGinn não tem um conceito definido da mística, mas oferece um sentido de como ele a entende: “como parte ou elemento da religião”. Com isso ele deixa transparecer que a mística faz parte intrinsecamente da religião. Ele é categórico em dizer:

Nenhum místico (pelos menos antes do século presente) acreditava em ou praticava “mística”. Eles acreditavam em e praticavam cristianismo (ou judaísmo, ou hinduísmo ou o islã), ou seja, em religiões que continham elementos místicos como parte de um todo histórico mais vasto (McGinn, 2012, p. 16-17).

A mística não é mérito apenas da tradição cristã. Todas as tradições religiosas apontam para o mistério. Se não indicam o caminho do mistério distorcem a sua função primordial de ser ponte que dá acesso ao mistério fontal o qual recebe muitos nomes: Deus, Javé, Alá, Olorum etc.

É possível relacionar mística e religião? É sabido que “cada religião possui sua identidade e o seu jeito próprio de dizer a experiência mística (…) Por isso, as religiões não podem ser dogmáticas e sistemas fechados” (Boff, 2009, p. 55). Uma religião sem mística não passa de pura ideologia dominante. E frequentemente pode cair no fundamentalismo e no fanatismo. Deus não é propriedade de nenhuma religião. Ninguém o pode monopolizar.

Nenhum líder, por melhor que ele seja, tem o direito de se apossar da religião como se esta fosse sua empresa. Quando isso acontece a mística desaparece e ficam apenas os modismos religiosos. “Às religiões constituem uma das construções de maior excelência do ser humano. Elas todas trabalham com o divino, com o sagrado, com o espiritual. Mas elas não são o espiritual. Espiritualidade é outra coisa” (Boff, 2009, p. 19). A mística sempre foi considerada como a busca pelo caminho interior que conduz ao encontro pessoal com Deus.

O estudioso da mística Willi Jäger diz: “Às vezes tenho a impressão de que a mística é a salvação da religião. (…) A religião sempre se renova através da experiência dos sábios e dos místicos” (Jäger, 2009, p. 9). Nos dias de hoje há ausência da mística no seio das religiões? Jäger, como estudioso da mística, sabe que ela desempenha um papel fundamental no seio da religião. A mística possui um dinamismo renovador na religião. A religião jamais pode aprisionar a mística entre quatro paredes.

Qual seria uma das contribuições dos místicos para as religiões e suas respectivas doutrinas? José Luis Vázquez Borau responde com clareza esta pergunta. Diz ele: “Os místicos são a salvaguarda viva que impede as religiões e as doutrinas de caírem no dualismo, alteridade, no formalismo, no dogmatismo, no fideísmo ou na idolatria” (Vázquez Borau, 2002, p. 26). Os místicos dinamizam o interior das religiões. Sem a presença dos místicos as religiões ficam ressequidas. A mística é a libertação de um sistema religioso fechado em si mesmo.

Portanto, uma religião que não cria espaço para o florescimento da mística está preparando o caminho do próprio desaparecimento. Sem a mística a religião se torna estéril e morre asfixiada pelo formalismo, pelo dogmatismo e pela lei: “olho por olho e dente por dente”. Vale dizer que o místico é alguém que está para além dos dogmas de uma determinada religião. É alguém que mergulha no entendimento do todo, na união com Deus, mas sem abandonar a vida ativa. Borau alerta os cristãos: “Não esqueçamos que a experiência mística máxima, no limite do mistério, é a que Jesus vive no abandono da Cruz. E também muitos místicos que, tal como Ele, transformam a dor em amor” (Borau, 2002, p. 131). É em Jesus Cristo morto e ressuscitado que está centrado o fundamento último da mística cristã desde sempre.

Considerações Finais

Falar da mística cristã em pleno século XXI é sempre um desafio. Desafio esse que implica investigação, cuidado, prudência e bom senso na hora de nomear a experiência do mistério que cada pessoa vai fazendo ao longo de sua existência. Mas de outro lado, o estudo da mística fascina, instiga e contagia estudiosos dos vários campos do conhecimento humano. Nesse sentido, pode-se dizer que a mística é algo latente nos dias atuais. Ela surge sempre para dizer que a religião não tem a última palavra sobre Deus e seu mistério; que o ser humano é um ser intrinsecamente religioso. Por isso, a religião precisa constantemente escutar a voz dos místicos. Caso não o faça, é sinal de que a religião se tornou árida e estéril.

A mística cristã tem como centro não uma ideia, mas uma pessoa: Jesus de Nazaré. Nele o cristão é convidado a fazer uma experiência de encontro pessoal. Uma experiência de transformação interior e até mesmo exterior. Essa experiência de encontro pessoal com Cristo não é exclusividade de algumas pessoas privilegiadas. A possibilidade desta experiência é destinada ao homem e à mulher do século XXI. Muitos até podem pensar que a mística é para pessoas com “dons especiais” ou “sobrenaturais”, porém esta não é a mística cristã.

Portanto, a busca pela experiência mística não é somente uma indagação por Deus, mas é também uma pergunta pela própria identidade pessoal daquele que se propõe trilhar o caminho da experiência do sagrado. Muitos perguntam pelo ser de Deus, ou seja, pela sua própria essência, mas acabam esquecendo-se de perguntar por si próprios. A mística não é uma questão puramente metafísica. É uma experiência concreta, inclusiva e ativa no aqui e agora da historicidade do humano.

Sintetizando, a mística cristã é uma experiência de amizade profunda com Cristo e seu mistério. O místico é um amigo de Cristo. Vive sua vida confrontada e iluminada pela vida de Cristo sem deixar de estar envolvido no contexto sócio-político-cultural em que está inserido.

 

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