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Artigos, Liturgia - 16/05/2018

Todos ficaram cheios do Espírito Santo

1682

Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar.

Pentecostes, ano B 2018

 

Oração: “Ó Deus, que, pelo mistério da festa de hoje, santificais a vossa Igreja inteira, em todos os povos e nações, derramai por toda a extensão do mundo os dons do Espírito Santo, e realizai agora no coração dos fiéis as maravilhas que operastes no início da pregação do Evangelho”.

Primeira leitura: At 2,1-11

Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar.

João coloca a doação do Espírito Santo no dia da Páscoa, quando Jesus ressuscitado aparece aos apóstolos reunidos no Cenáculo. Lucas coloca-a no dia da festa judaica de Pentecostes. Esta, na origem, era a festa agrícola do início da colheita do trigo, celebrada sete semanas após a festa dos ázimos, ligada à Páscoa. Era uma das três festas de peregrinação. Na festa de Pentecostes o israelita devia comparecer diante de Deus e apresentar os primeiros frutos da colheita do trigo. Mas, no II século a.C., na festa de Pentecostes passou-se a comemorar a promulgação da Lei de Moisés no Sinai. E a doação do Espírito se dá em meio a “barulho” e “forte ventania”, que lembram a teofania do Sinai: “trovões, relâmpagos… e fortíssimo som de trombetas”, marcando a descida de Deus “em meio ao fogo” (Ex 19,16-19). A respeito, o Rabi Johanan dizia: “A voz saiu e se repartiu em setenta vozes ou línguas, de modo que todos os povos a entendessem; e cada povo ouviu a voz em sua própria língua”.

Ora, Lucas conhecia esta tradição: como a Lei de Moisés era conhecida em todo o mundo, agora também o Evangelho é pregado a todos os povos, citados em nosso texto. A diversidade das línguas nas quais cada um entendia a mensagem do Evangelho é um convite aos apóstolos e discípulos, para que, impulsionados pelo Espírito Santo, levem a mensagem de Jesus a todos os povos e culturas.

Salmo responsorial: Sl 103 (104)

            Enviai o vosso Espírito Senhor

e da terra toda a face renovai.

Segunda leitura: 1Cor 12,3b-7.12-13

Fomos batizados num único Espírito,

para formarmos um único corpo.

 

Paulo fala longamente para a comunidade de Corinto sobre os dons do Espírito Santo (1Cor 11,2-16; 12,1–14,39). Sem eles, nada podemos fazer, nem mesmo dizer: “Jesus é o Senhor”. Os dons ou “carismas” são “atividades”, serviços ou manifestações do Espírito “em vista do bem comum”, assim como cada membro presta serviço para o bem do mesmo corpo. Paulo usa a imagem do corpo que tem muitos membros, mas forma uma única unidade. O Espírito nos unifica num só Corpo em Cristo: “judeus ou gregos, escravos ou livres, fomos batizados num único Espírito”. O Espírito Santo distribui seus dons / carismas não para distinguir esta ou aquela pessoa, mas em vista do bem da comunidade. A manifestação do Espírito se dá em todos os membros da comunidade. Não é privilégio do clero, dos religiosos ou de “grupos carismáticos”. A propósito, numa homilia de um autor anônimo do séc. V se diz que todos nós também “falamos em línguas” porque pertencemos à Igreja, Corpo Místico de Cristo, que anuncia o Evangelho em inúmeras línguas, pelo mundo inteiro.

Aclamação

Vinde, Espírito Divino,

e enchei com vossos dons os corações dos fiéis;

e acendei neles o amor como um fogo abrasador!

Evangelho: Jo 20,19-23

Assim como o Pai me enviou, também eu vos envio:

Recebei o Espírito Santo!

 

No domingo passado recordamos que Jesus, antes de subir aos céus, enviou os apóstolos em missão: “Ide por todo o mundo, proclamai o Evangelho a toda criatura”. O evangelista Marcos nos lembrava que os apóstolos partiram em missão; pregavam em toda a parte e o Senhor Jesus “os ajudava, confirmando sua palavra com milagres que a acompanhavam”. Portanto, a Ascensão marca o fim da missão de Cristo aqui na terra e o começo da missão de seus discípulos.

Hoje nos é revelado como se dará esta presença de Cristo entre nós. Jesus aparece no meio dos discípulos, saúda-os duas vezes e os tranquiliza com sua presença, dizendo: “A paz esteja convosco”. Em seguida, se identifica mostrando-lhes as mãos e o lado perfurados. Ele é o mesmo Jesus crucificado, que cumpriu sua missão, a obra de nossa salvação, e pode voltar ao Pai: “Subo para o meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus” (Jo 20,17). Antes de voltar ao Pai, porém, deixa-nos a tarefa de continuar sua missão: “Como o Pai me enviou também eu vos envio”. Jesus estará para sempre conosco através de seu Espírito, o Advogado e Consolador, que estará sempre ao lado de seus discípulos: “Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados”. Pelo dom de sua vida Jesus nos reconciliou com Deus, manifestando o amor misericordioso do Pai. Agora confia a seus discípulos a missão de manifestar esta mesma misericórdia: “A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados”. Em geral, pensamos que só o sacerdote pode perdoar pecados em nome de Deus. No entanto, a reconciliação é uma tarefa de todo cristão: “Perdoai nossas ofensas assim como nós perdoamos”. O poder de “ligar e desligar” é uma tarefa para todos. Se não perdoar a meu irmão, fico ligado, amarrado a ele pela raiva, ódio e desejo de vingança. Quando lhe concedo o perdão, fico livre para amar. Quando lhe peço perdão, restabeleço os laços de amor rompidos. Para este gesto de perdão e reconciliação Deus nos concede o dom do Espírito Santo.

 

Frei Ludovico Garmus, ofm



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