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REB
REVISTA ECLESIÁSTICA BRASILEIRA
A escola da liberdade. Subsídios para meditar, por João Batista Libanio. Loyola, São Paulo 2010, 1 vol. br. 230 x 160mm, 446 p. – ISBN 978-85-15-02431-5
Quem acompanha de perto e com entusiasmo a vasta e bela obra teológica do Pe. João Batista Libanio esperava um livro como esse há muito tempo. Tal é o caso da recenseadora, que o teve como professor e mestre e consciente está de seu profundo conhecimento da espiritualidade na qual foi formado. Espiritualidade esta que também o configurou e formou como teólogo.
É por isso que a publicação suscita uma alegre surpresa. Certamente se trata de uma obra de maturidade por parte deste incansável trabalhador da Palavra de Deus e da inteligência da fé. Como se fosse um desaguar caudaloso de um rio espesso e vasto no Oceano que é seu Alfa e seu Ômega.
O que mais impressiona no livro em questão já ao primeiro golpe de vista sobre ele lançado é seu título: Escola da liberdade. Apenas os que conhecem Inácio e seus Exercícios adivinharão tudo que se encontra por trás desta palavra: liberdade, que os poetas e menestréis cantaram em todos os tons ao longo de toda a história da humanidade; à qual Jesus de Nazaré deu conteúdo novo e especial; e que Inácio de Loyola conhecia como poucos.
Os Exercícios, na verdade, são uma experiência que se faz na liberdade para dela sair mais livres, banhados pela liberdade absoluta de Deus que a suscita, a acompanha e a conduz a bom termo, qual seja, sua santíssima vontade. Inácio com seus Exercícios propõe um método de “ordenar-se a si mesmo a fim de buscar e encontrar a vontade de Deus para a própria vida” e nele e através dele se dirige diretamente à liberdade humana. Respeitando essa liberdade de maneira profunda e verdadeira, propõe um caminho àquele ou àquela que deseja encontrar o Senhor como Sentido de sua vida.
Como diz o autor, na introdução de seu livro, “a espiritualidade inaciana... posiciona-se... do lado da liberdade” (p. 20). Mas enfatiza que a liberdade segundo Inácio está longe de ser o trêfego e “light” seguir impunemente impulsos e instintos, tão presente na época atual. Equilibrando a balança da vida espiritual, do outro lado da liberdade está a obediência humilde e amorosa a Deus e seu projeto que o exercitante buscará com diligência e prontidão (cf. EE, n 91-98: Meditação do Reino).
Notável na preocupação metodológica e didática, a fim de ajudar aqueles e aquelas que o lêem e guiá-los discreta e eficientemente na leitura, o Pe. Libanio estrutura seu livro na forma de um processo meditativo teológico-espiritual. Segue a espinha dorsal dos Exercícios Espirituais e os vai recheando de preciosas reflexões teológicas, indicações bíblicas e bibliográficas.
São 21 capítulos que cobrem o itinerário das quatro semanas do retiro de mês (30 dias) que o mesmo Inácio compôs e propôs a gigantes da espiritualidade de seu tempo, como Pedro Fabro e Francisco Xavier. As quatro “semanas” inacianas estão permeadas com alguns Excursus, nos quais o autor resgata o aparelho metodológico de Inácio que oferece instrumentos ao acompanhante do retiro e ao próprio exercitante: anotações, adições, regras etc.
Fiel à sua preocupação de auxiliar a experiência dos Exercícios nos dias de hoje, o autor inicia todos os capítulos do livro com uma aterrissagem contextual. Relembra as circunstâncias, os desafios e as questões levantadas com relação ao que é o conteúdo das meditações e contemplações daquela precisa etapa que se dispõe a comentar. E assim fazendo, situa o leitor para que consiga extrair mais fruto da leitura orada do texto. Ao final de cada capítulo, propõe textos de apoio, indicações bibliográficas, assim como textos bíblicos que enriquecem a leitura. Essas indicações permitirão, inclusive, ao leitor retornar sobre a leitura feita, repetindo-a e dela extraindo novos “insights” e inspirações, seguindo uma prática muito inaciana (cf. a orientação de fazer todos os dias uma “repetição” sobre a conteúdo da oração: EE 118).
Ao final de cada capítulo, são propostas perguntas para reflexão pessoal ou comunitária. Pretende, assim, o autor facilitar o uso do livro por indivíduos ou grupos que façam sua leitura pausada e meditadamente, ao longo dos dias. São perguntas que vão ao coração dos temas e que certamente ajudam muito no objetivo que o livro tem: oferecer elementos para quem quiser usá-los no interior da estrutura dos Exercícios (p. 20).
Sendo um livro bastante diferente em conteúdo e forma da maioria dos outros que compõem a vasta obra do Pe. Libanio, esta não deixa de obedecer às características de um texto propriamente teológico. O teólogo que a escreve não se esconde, mas se revela de forma inconfundível e perceptível não apenas ao leitor mais avisado, mas a todos os leitores e leitoras da mesma. É assim que o leitor poderá encontrar alimento teológico para sua reflexão na medida em que avança no aprofundamento espiritual proposto pelos Exercícios de Inácio.
O próprio autor ressalta essa característica, ao situar a cristologia inaciana dentro da mais recente corrente cristológica ascendente, que parte de baixo, do Jesus da história, da humanidade do Verbo Encarnado “por nós”. Revela assim sua pertença inegável a toda uma linhagem de teólogos maiores contemporâneos, como Karl Rahner e Hans Urs von Balthasar, que admitem e proclamam com júbilo ser sua teologia configurada e selada indelevelmente pela experiência dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio.
Não é diferente com este teólogo mineiro. Nesta obra, o professor e pesquisador, exímio nas lides teológicas acadêmicas e nas assessorias pastorais, expõe diante do leitor a fonte da qual bebe e que lhe dá razão para viver e para esperar. O leitor, agradecido, é convidado a unir-se a esta ação de graças. E a usar responsável e livremente este precioso material que tanto pode ajudá-lo em sua vida espiritual a nível pessoal como também pastoral e comunitário.
Maria Clara Lucchetti Bingemer
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