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Raízes Históricas da Crise Ecológica

Grupo de Pesquisa: “Ecoteologia: contribuição franciscana à evangelização e à reflexão teológica”.

Apresentamos o trabalho produzido pelo Grupo de Pesquisa do Instituto Teológico Franciscano: “Ecoteologia: contribuição franciscana à evangelização e à reflexão teológica”.

evolução e dagradação

Tema: Raízes Históricas da Crise Ecológica – Estudo de Lynn White[1]

Apresentação: Frei Ludovico Garmus, OFM

Sistematização: Christiane J. Blower Stock

Este artigo levanta questões básicas, como a fusão da ciência e da tecnologia, que ampliam o poder destrutivo do homem sobre a natureza.

Inicialmente a agricultura causou grandes modificações nas paisagens terrestres, além da derrubada de florestas para obtenção da madeira e a introdução de espécies de outras regiões (ex.: o coelho na Inglaterra). O uso de arados mais aprimorados tecnologicamente, que não só formavam sulcos, mas, também reviravam a terra, aprofundou a interferência no solo. Quando os primeiros canhões surgiram, a busca de minerais como o potássio e ferro causou mais erosão e desmatamento.

Hoje, com as bombas de hidrogênio e a modificação química da atmosfera temos efeitos a nível planetário. Primeiro seria necessário compreender as raízes mais profundas desta crise e as origens da ciência e da tecnologia modernas. A ciência foi tradicionalmente aristocrática e intelectual enquanto a tecnologia era própria das classes mais baixas e empírica, voltada para a ação. A união do cérebro com as mãos trouxe esse par poderoso capaz de destruir o mundo.

É preciso lembrar que a época em que o presente artigo, escrito em 1967, mostra, ao lado de um grande desenvolvimento científico e tecnológico, uma crescente corrente crítica a este progresso linear e ilimitado gerando enorme crise ambiental. Segundo o autor, axiomas da ciência moderna, como a separação homem–natureza, é uma das principais bases do conflito ecológico. Ao mesmo tempo, nossa relação com a terra depende do que pensamos sobre nós mesmos, sobre nosso destino, e da nossa visão de mundo, ou seja, da religião.

A vitória do cristianismo sobre o paganismo, que causou a dessacralização da natureza, retirou seu escudo de proteção. Não era mais necessário pedir permissão ao espírito protetor de uma árvore para cortá-la. A natureza se tornou um objeto a ser explorado. Não somos mais capazes de escutar o espírito da floresta, a voz da terra, o que os rios têm a nos dizer. Esse saber não científico os índios yanomani conservam até hoje. Antes que a climatologia pudesse provar, já sabiam que a derrubada da floresta amazônica iria diminuir a chuva no sudeste, gerando sérias perturbações climáticas.

Algumas ideias formaram a base para que a crise atual se consolidasse. Ao contrário do pensamento do Oriente e dos intelectuais do antigo Ocidente, que tem um conceito cíclico do tempo, o conceito de tempo judaico-cristão é não repetitivo e linear. A interpretação da história da criação que predominou no Ocidente coloca o homem numa posição superior à natureza. Todos os seus elementos físicos teriam sido criados para benefício e domínio do homem, reafirmando assim o dualismo entre cultura e natureza.

O conceito de tempo linear favorece o progresso perpétuo, sem limites, característico da nossa época. A história da criação mostra a centralidade e superioridade do homem. Portanto, segundo o autor, o cristianismo – baseando-se nas Escrituras Sagradas (Gn 1,26-28) – é a religião mais antropocêntrica que o mundo já conheceu, principalmente em sua forma ocidental. Essa afirmação suscitou um debate sobre o antropocentrismo, como sendo positivo ou negativo em termos da relação homem-natureza.

Contudo, é importante também ressaltar a responsabilidade do homem de cuidar e resguardar a natureza, como ser consciente que é dentro da criação. Além da proposta de um antropocentrismo mais equilibrado, no debate surgiram outras visões como o ecocentrismo (a ecosfera sendo o centro), e como o sentido trinitário da vida proposto por Panikkar. A trindade Deus, homem, cosmos, fundida numa unidade que denominou cosmoteândrica.

Finalmente, White coloca que a solução não é uma questão de mudar de religião, mas de repensar o cristianismo, criando uma percepção alternativa da natureza. Esta alternativa existe no seio do cristianismo: Francisco de Assis propôs uma visão cristã diferente do ser humano em suas relações com a natureza. São Francisco foi um revolucionário no seu tempo, ao propor a igualdade entre os seres, incluindo o homem numa nova relação com a natureza. Porém, por não ter uma visão panteísta, mostrava o Deus que transcendia a sua própria criação. Por fim, Lynn White conclui: “Eu proponho Francisco com o celeste protetor dos ecologistas”.

Uma vez que a crise ecológica tem raízes profundas na religião, seu remédio parece ser essencialmente religioso. Francisco de Assis aponta para um novo rumo e revela a irmandade entre todos os seres, formando uma única comunidade-Terra.

Debates

A questão acerca da origem da crise ambiental suscitou debates entre o grupo. Estaria de fato associada ao cristianismo, como sugerido pelo autor, ou ao tecnocentrismo/capitalismo, como sugerem cientistas sociais contemporâneos?

Acerca da crítica ao antropocentrismo, ponderou-se sobre a responsabilidade do homem perante o cuidado das demais criaturas, consoante sua maior capacidade cognitiva e de intervenção no meio natural. Tal responsabilidade, se exercida com cuidado, amorosidade e respeito – e não como forma de dominação ou exploração – permite que se identifique o antropocentrismo como algo não necessariamente negativo.

A perspectiva de São Francisco não seria antropocêntrica, nem biocêntrica, mas cristocêntrica. Ao identificar a presença amorosa de Cristo em toda a Criação (“nada vejo corporalmente nesse mundo do mesmo altíssimo Filho de Deus, a não ser o seu santíssimo Corpo e seu santíssimo Sangue”, Testamento 10), Francisco, em chave cristocêntrica, convida à relação com a Criação a partir da perspectiva da fraternidade universal, na qual toda a Criação imanente advém da mesma Fonte transcendente.

[1] WHITE, Lynn. Raíces históricas de nuestra crisis ecológica. Revista Ambiente y Desarrollo 23 (1): 78-86, Santiago de Chile, 2007.



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