PUBLICAÇÕES



NEWSLETTER
Receba as nossas novidades por e-mail! Clique aqui.

Artigos, Destaques - 10/02/2017

Os Cuidados pastorais para com a família

Ponderações fragmentárias a respeito dos cuidados pastorais para com a família

Cada um de nós teve sua família. Boa parte do que somos devemos ao ambiente familiar em que crescemos. Não é necessário dizer que nestes tempos novos a família, também a família cristã, anda querendo ter cores novas em seu semblante. Não é um artigo de alguns parágrafos que vai resolver a questão da família.

familia-algo-que-nao-vem-do-homem.html

 

Frei Almir Ribeiro Guimarães

Petrópolis – RJ

 

 

  1. “A família é patrimônio da humanidade, constitui um dos tesouros mais importantes dos povos latino-americanos. Ela é escola de fé, espaço de vivência dos valores humanos e cívicos, lar em que a vida nasce e é acolhida generosa e responsavelmente. No entanto, na atualidade sofre situações provocadas pelo secularismo e pelo relativismo ético, por diversos fluxos migratórios internos e externos, pela instabilidade social e por legislações civis contrárias ao matrimônio que, ao favorecer os anticoncepcionais e o aborto, ameaçam o futuro dos povos” (Bento XVI, Discurso de abertura da Conferência de Aparecida, n. 5).
  2. Em nossos tempos, a família vive um período de reconstrução bastante complexa e delicada. Busca-se uma nova maneira de viver em família e de viver a família. No presente momento não se pode colocar mais pesos sobre os ombros de nossas esgotadas famílias, nem culpabilizar os pais pelos dramas vividos por seus filhos, o maior deles esse desestruturar-se dos jovens no mundo das drogas e do crime. Os agentes de pastoral e aqueles que foram escolhidos para dirigir a sociedade precisam aproximar-se de todas as formações familiares para ajudá-las a cumprir sua missão: construção bela do casal e a geração de filhos para o mundo e para a Igreja. As famílias, todas elas, precisam ganhar um olhar de simpatia e de compreensão.
  3. Para que a família possa ser escola de fé, de valores humanos e cívicos, lar que acolhe e desenvolve a vida ela precisa de atenções e de cuidados. Apesar de todas as transformações da sociedade ela continua sendo instituição fundamental para o bem-estar da humanidade e da Igreja. É espaço primário de personalização e socialização, de descontração e de aprendizado da sabedoria de viver, primeira evangelizadora das novas gerações. O fracasso de uma família tem graves repercussões sobre seus membros e sobre as pessoas que vivem à sua volta. Na família acontecem as experiências da vida que tanta importância têm para a configuração da pessoa e o modo como esta se situa no mundo. Escola de humanismo e Igreja doméstica, a família precisa ser trabalhada e acompanhada. Não pode ela ser entregue à própria sorte. Trata-se, pois, de fazer com as famílias uma caminhada na busca de caminhos novos a serem por ela descobertos.
  4. Trabalhar pela família é acompanhar seus passos, estar ao seu lado em todos os momentos de seu desenvolvimento. Desde a sua constituição natural até seu desfecho pela morte natural dos cônjuges, algumas vezes tornados avós ou bisavós. Não se trata de querer buscar modelo de família no passado. Não “funciona” o saudosismo. Necessário criar uma família “nova”. Tais cuidados serão desenvolvidos pelo que se convencionou chamar de Pastoral Familiar. O que é trabalhar pela família?
  5. “A Pastoral Familiar abarca a família em todos os seus aspectos. Pretende atingir todos os seus integrantes nas diferentes idades e diversas situações. Dirige-se a todos os tipos de família: bem constituídas, irregulares e também contempla casos especiais e difíceis. A todas, quaisquer que sejam a realidade e as circunstâncias, a Igreja através da Pastoral Familiar, deseja levar uma palavra de apoio, de orientação, de conversão, sempre animada e impulsionada pelo espírito do Bom Pastor” (Pastoral Familiar no Brasil, Estudos da CNBB 65, n. 7).
  6. Pastoral Familiar é uma ação da Igreja e com a Igreja, de forma organizada, planejada e revisada através de agentes específicos, com metodologia própria, tendo como objetivo o acompanhamento e evangelização da família, capaz de oferecer instrumentos para sua formação e orientações para a vivência familiar levando a todos a Boa Nova do sacramento do matrimônio e oferecendo base para que a família possa dar sua colaboração indispensável na transformação da sociedade.
  7. A palavra evangelização, nova evangelização está na ordem do dia. Nossa Igreja vive o desejo de retomar o empenho da evangelização dos começos. Não basta apenas que nossas famílias reencontrem elementos humanos e cristãos que parecem terem sido deixados de lado. Não basta colocar remendo novo em pano velho. Não é suficiente tomar providências para consertos superficiais. Os grandes problemas vividos por nossas famílias serão iluminados pela força do Evangelho. A renovação das famílias não se fará apenas com uma ação isolada de movimentos familiares, mas no seio de toda uma Igreja evangelizadora, numa pastoral de conjunto, num empenho mais vasto de difusão do Evangelho do que com encontros marcados pela dimensão emocional, sem fincar raízes no nó mais profundo das pessoas. Encontros esporádicos de massa não são suficientes. Diante do relativismo moral, da cultura do provisório e da era do individualismo será preciso um catecumenato evangelizador, ou seja, que a evangelização da família se faça por etapas.
  8. A Mensagem final do Sínodo sobre a nova evangelização (2012) assim se exprime: “Desde a primeira evangelização, a transmissão da fé na sucessão das gerações encontrou na família seu lugar natural. No seu interior – com um papel assumido de modo particular pelas mulheres, sem esquecer a figura e a responsabilidade paterna – os sinais da fé, a comunicação dos primeiros rudimentos, a educação para a oração, o testemunho dos frutos do amor foram introduzidos na existência de crianças, dos jovens pelo cuidado que cada família reserva ao crescimento de seus filhos. Na diversidade de situações geográficas, culturais, sociais, todos os Bispos do Sínodo confirmaram o papel essencial da família na transmissão da fé. Não se pode pensar em nova evangelização sem atribuir uma responsabilidade especial pelo anúncio do Evangelho às famílias e acompanhá-las em seu dever de educação dos filhos (Mensagem final, n. 7).
  9. Um pouco mais adiante: “A vida familiar é o primeiro lugar no qual o Evangelho se insere no cotidiano da vida e mostra sua capacidade que encerra para transfigurar as condições fundamentais da existência sob o signo do amor. De muita importância para o testemunho da Igreja mostrar como esta vida temporal se realiza além da história dos homens e atinge a comunhão eterna com Deus” (idem).
  10. Recentemente a CNBB publicou o documento final da Assembleia dos Bispos sobre o tema da paróquia (Comunidade das Comunidades. Uma nova Paróquia, Estudos da CNBB 104). Situando a família no seio da paróquia o Documento tece considerações que devem ajudar na concretização de uma autêntica Pastoral Familiar.
  • “É preciso perceber a mentalidade individualista que fragiliza a vida familiar. A família, formada por um homem uma mulher e seus filhos, encontra-se confrontada com outras formas de convivência. Constatam-se políticas públicas que nem sempre respeitam essa célula fundamental da sociedade. Muitos casais têm dificuldade de se unirem na fidelidade e no amor, especialmente porque alguns apregoam que o mais importante é ser feliz sem pensar nos demais, amor sem compromisso” (n. 100).
  • “Em nossas paróquias participam pessoas unidas sem o vínculo matrimonial, outras estão numa segunda união, e há aquelas que vivem sozinhas sustentando os filhos. Outras configurações também aparecem, como avós que criam os netos ou tios que sustentam sobrinhos. Crianças são adotadas por pessoas solteiras ou por pessoas do mesmo sexo que vivem união estável” (n. 101).
  • “A Igreja, família de Cristo, precisa acolher com amor todos os seus filhos. Sem esquecer os ensinamentos cristãos sobre a família, é preciso usar de misericórdia. É hora de recordar que o Senhor não abandona ninguém que, também a Igreja quer ser solidária nas dificuldades da família. Muitos se afastaram e continuam se afastando de nossas comunidades porque se sentiram rejeitados, porque a primeira orientação que receberam fundamentava-se em proposições e não numa proposta de viver a fé em meio à dificuldade. Na renovação paroquial, a questão familiar exige conversão pastoral para não perder nada do que a Igreja ensina e igualmente não deixar de atender, pastoralmente, às novas situações” (n. 102).

  1. Convicções e urgências:

  • Não se pode pensar numa Pastoral Familiar marcada por um espírito de familismo, ou seja, de insistência na harmonia interna de uma família que tenha possibilidade de viver dignamente e harmoniosamente, de maneira fechada. A verdadeira Pastoral Familiar vê na família uma instância de transformação da sociedade e de criação de famílias novas lá onde existe o caos. A Pastoral Familiar necessita de agentes lúcidos, formados, maduros.
  • Não se trata apenas de restaurar, mas de renovar em profundidade a família. Trata-se de tirar da teia de seu dia a dia toda tentativa de sobrepujança de uns sobre os outros, valorização da mulher e dos filhos, atenção aos membros mais fragilizados pela enfermidade ou pela idade avançada.
  • Não existe uma Pastoral Familiar estanque. Na verdade pastoral alguma se isola. Há uma interpenetração entre os serviços pastorais e evangelizadores. Na catequese das crianças, nos círculos bíblicos, nas homilias, nas reuniões dos pais dos candidatos à crisma, na pastoral dos jovens será sempre questão de pastoral familiar.
  • Fazer Pastoral Familiar, como realizar os outros serviços pastorais, consiste sempre no acompanhamento dos grupos, acompanhamento regular e fiel. Será preciso dar tempo ao tempo, permitir que as pessoas se revelem, se deixem conhecer, entrem em contacto com o Evangelho, retomem o caminho interrompido, levantem de quedas. Serão sempre respeitadas as lentidões das pessoas, dos casais e das famílias. Ilusão pensar que se faz Pastoral Familiar com fugazes encontros de fim de semana. Ela exige acompanhamento.
  • Devido à complexidade da família e sua temática (preparação para a vida conjugal e familiar, projeto conjugal, projeto familiar, construção do casal, educação dos filhos) os agentes de Pastoral Familiar não podem ser improvisados. Necessitamos de pessoas que testemunhem profundamente a vida conjugal e familiar como também de peritos capazes de ajudar os casais a viverem suas diferenças, a serem atores de uma evangelização pelo amor, pais capazes de educar os filhos e de lhes mostrar a beleza de uma vida de fé. Os agentes de pastoral, a médio prazo, precisão ser preparados. Como organizar cursos de noivos e noites de reflexão sem pessoas capazes de fazer uma leitura crítica e cristã da cultura moderna?
  • Já insistimos na questão da busca de uma pastoral nova. Discursos, dinâmicas e táticas pastorais e evangelizadoras não podem ter como preocupação uma mentalidade conservadora, como se o passado fosse o mestre. Trata-se de construir o casal, de educar os filhos num contexto de igualdade entre homem e mulher, num tempo de superficialidade na escolha dos parceiros, num mundo que está tão em movimento que os educadores sentem que precisam retomar o trabalho a cada curva da estrada. Que tipo de roteiros fabricar? Que expedientes criar e inventar para que casais e famílias se reúnam.
  • A Pastoral Familiar há de ser muito mais preventiva do que remediadora. Em muitos Conselhos de Pastoral em nível diocesano e paroquial vemos uma preocupação grande, talvez até grande demais, com os separados e recasados. Ninguém nega a legitimidade de tal preocupação. Parece, no entanto, que maior emprenho mereceriam os cuidados preventivos. Por isso é importante a assistência criteriosa em termos da temática familiar na adolescência, na preparação para o crisma, na criação de um verdadeiro catecumenato matrimonial, no acompanhamento de grupos de jovens casados.
  • No momento atual da vida da Igreja os Movimentos exercem um papel importante. Muitas de nossas paróquias não conseguem ir além do mínimo: celebrações, encomendações, catequese para a primeira eucaristia e crisma. Os Movimentos de Espiritualidade acolhem em suas fileiras muitos casais. Importante que os responsáveis pelos Movimentos se insiram nos compromissos da Igreja e ofereçam seus bons empenhos para construir uma Igreja aberta a todos.
  • Precisamos de famílias e casais santos. Nada de se contentar com mínimo necessário para uma vida digna. Os casais e as famílias, apesar de todas as dificuldades ao seu redor, levarão uma vida santa na convivência da casa, na renúncia ao supérfluo, na tentativa de viver no lar e na vizinhança as bem-aventuranças do Evangelho, na criação e animação de uma verdadeira Igreja doméstica, na assistência carinhosa dos membros doentes e problemáticos de suas famílias e da vizinhança, na busca de intimidade com Deus através de retiros espirituais e de leituras que possam alimentar uma sólida espiritualidade. Precisamos de casais santos.
  • Por vezes observa-se uma certa tendência de se organizar a pastoral dos recasados separada demais da Pastoral Familiar “normal”. Sempre respeitando a verdade sobre o sacramento do matrimônio e a indissolubilidade do vínculo por matrimônio legítima e corretamente contraído não convém criar “categorias” de casados com pastorais que podem dar a impressão de serem discriminatórias.

  • *Frei Almir Ribeiro Guimarães



Compartilhe: