PUBLICAÇÕES



NEWSLETTER
Receba as nossas novidades por e-mail! Clique aqui.

Geral - 09/05/2018

“O Frei Constantino Koser, que conheci como estudante”

Frei Ludovico Garmus, ofm

Frei Constantino Koser, OFM ✮09/05/1918 †19/12/2000

Conheci Frei Constantino Koser, em 1962, como professor de Teologia Dogmática, quando, com meus colegas de turma, iniciava os estudos de Teologia em Petrópolis. Começava então o Concílio Vaticano II, mas nossa Teologia era ainda escolástica, seguida também por Frei Constantino. Além dos manuais em latim disponíveis, ele preparava amplas apostilas em português, onde dava ênfase própria aos teólogos franciscanos, como Boaventura e Scotus. Com ele tivemos apenas um semestre de aulas, mas foi o suficiente para apreciar sua vasta cultura, clareza de exposição, com princípio, meio e fim. Suas aulas eram tão bem preparadas e cronometradas, que conseguia concluir a exposição cinco minutos antes do toque da campainha, tempo que reservava para contar uma bem humorada piada. Quando terminava de contar a piada, nós respondíamos com gargalhadas e ele coçava a cabeça de satisfação, rindo conosco.

Frei Constantino, teólogo, pregador e escritor

Como teólogo, já antes do Concílio, Frei Constantino sentia que os tesouros da Teologia não podiam ficar confinados às quatro paredes do convento. Por isso, tornou-se um assíduo colaborador da Revista Eclesiástica Brasileira, onde publicava artigos e as homilias. Uma senhora alemã já idosa, vizinha do Sagrado, “madrinha” de ordenação sacerdotal e amiga de Frei Constantino, desejava estudar Teologia. Naqueles anos, era impensável uma mulher “invadir” a clausura, ainda mais para estudar teologia ao lado dos frades. Com permissão de Frei Constantino, ela adquiriu um gravador “moderno” para que suas aulas lhe fossem gravadas. Talvez essa experiência o tenha animado a criar, anos antes do Concílio, o primeiro “Curso de Iniciação Teológica” (CIT) para os leigos no Brasil, curso que durou mais de 30 anos. Este curso foi muito bem acolhido, sobretudo, pelas religiosas e pelos religiosos. As aulas eram dadas pelos professores do Instituto Teológico, com ajuda de outros professores convidados do Rio e de São Paulo. Um dos professores era um salesiano de São Paulo. Como a procura pelo curso vinha, sobretudo, de São Paulo e Mato Grosso, alguns anos depois, esse professor salesiano resolveu fundar um curso similar, em Campo Grande. No IRPAMAT, a feliz parceria com os salesianos prosseguiu, agora com professores do ITF dando aulas de Iniciação teológica também lá. Em resumo, a boa semente plantada por Frei Constantino começou a dar bons frutos para a Igreja. Após o Concílio esses cursos de iniciação teológica proliferaram Brasil afora.

Frei Constantino, como professor, dono de uma imensa bagagem cultural e intelectual, não se restringiu à sala de aulas. Era muito procurado para proferir palestras e pregar retiros, tanto em Petrópolis como em Estados vizinhos. Na Semana Santa costumava dar assistência em paróquias do Rio e do Sul de Minas. Presidia a missa das 10h no Sagrado, com a presença dos “Canarinhos de Petrópolis”. Suas homilias eram sintéticas e substanciosas, muito apreciadas pelos fiéis e depois publicadas na REB. Em 1962 eu morava no assim chamado “Paraíso”, na Rua Frei Luís, defronte ao quarto do Frei Constantino. Todas as manhãs, o “pipocar” de uma máquina de escrever me despertava: era Frei Constantino, fazendo sua meditação por escrito.

Retorno à simplicidade do Convento do Sagrado

Após servir a Ordem durante 14 anos como Ministro Geral, escolheu o Convento do Sagrado Coração de Jesus para morar. A antiga enfermaria junto à capela interna do 2º andar foi transformada em quarto para ele. Procurava acompanhar em tudo a vida da fraternidade, sem exigências especiais. Gostava de andar pelo “corredor dos padres” e conversava com as pessoas que encontrava. Estava sempre presente na sala de estar da “comunidade permanente”, para conversar com os confrades, na hora do chimarrão.

No silêncio de seu quarto junto à capela dedicava-se à leitura e oração e, na medida do possível, continuava escrevendo as meditações. O guardião reservou para ele o quarto junto à escadaria que desce para o refeitório, em frente ao banheiro, para seu arquivo pessoal. Ali passava algumas horas por dia para organizar o fichário, seus escritos e apostilas de cursos, palestras e conferências e, sobretudo, as meditações escritas em mais de 16.000 laudas de papel ofício, espaço 1/5, preenchidas de alto a baixo. A última destas meditações é datada dois meses antes de seu falecimento, quando não tinha mais condições de escrever. Na enfermidade não se queixava. Não havendo mais condições de cuidá-lo em casa, Frei Constantino foi internado no Hospital Santa Teresa, uns quinze dias antes de falecer. Agravando-se o estado de saúde, as Irmãs de Santa Catarina recomendaram um plantão permanente e o guardião, Frei José Ariovaldo, organizou uma lista. Fui o primeiro a me inscrever, porque celebraria a missa das 18:00 h na capela das Irmãs. Passei umas duas horas junto a ele e conversei só um pouco, para não cansá-lo. Estava ainda lúcido, mas tinha dificuldade de respirar. Sei cardiologista, Dr. Ricardo Ribeiro, visitou-o e conversou com ele, tentando animá-lo. Às 18:00 h fui celebrar a missa, confiante que viesse o frade substituto, conforme o combinado. Antes de sair dei a bênção de São Francisco de Assis. Mas quando esse frade chegou, Frei Constantino acabara de falecer.

A pesada cruz de Frei Constantino

Vou contar um sonho que tive recentemente, em agosto de 2013. Em meu sonho, encontrava-me no Sagrado. Havia muita gente. Eu estava “apertado” e procurava o banheiro; mas, além de apinhada de gente, a casa encontrava-se em reforma. Pensei, então, em procurar o banheiro junto à escadaria, no andar de cima, usado por muitos confrades da fraternidade. Nisso, encontro-me no corredor com Frei Constantino Koser, que usava o mesmo banheiro. Conversando com ele, eu comentei: “Eh, Frei Constantino! Veja só. Nós, lá em nossa casa (Fraternidade São Francisco, junto ao ITF) temos banheiro em nosso quarto. E o senhor, aqui no Sagrado, não tem nada!” Então, para surpresa minha, ele tirou do peito uma cruz (que ele carregava sempre escondida, pois eu nunca a havia visto) e mostrou-me: Era uma cruz de ouro, com linda imagem do Cristo Crucificado. Para eu a ver melhor, ele a virou de perfil: Era uma cruz grossa, de ouro, com uma meia dúzia de camadas ou fatias! E ele me perguntou: “Isso vale alguma coisa, não é?” Eu fiquei admirado, pois nunca vira uma cruz tão preciosa; e, com olhos cobiçosos de Pedro Bernardone, logo calculei o seu peso e pensei comigo: “Ele vai nos deixar uma preciosa herança!”… E acordei!

Não conseguia mais dormir. E fiquei pensando no significado desta preciosa cruz e da herança que Frei Constantino Koser nos deixou. Como ex-ministro Geral, escolheu viver no Convento do Sagrado Coração de Jesus, uma casa pobre, velha e sem conforto algum para pessoas idosas e enfermas. Escolheu essa casa, porque ali tinha sido professor de Teologia por muitos anos. Só a deixou para servir a Ordem dos Frades Menores. Ao voltar de Roma, vivia de modo muito simples e pobre, junto aos confrades professores e aos estudantes de Teologia. Nada exigia de especial para si. Em seu quarto, junto à pequena capela interna havia apenas alguns poucos livros, pois a maior parte deles já os havia doado à biblioteca do Instituto Teológico, pela qual tanto tinha zelado como professor.

29738

Biblioteca Frei Constantino Koser, OFM – ITF

Após servir a Ordem como Definidor e Ministro Geral, nos primeiros anos, era convidado para proferir palestras e pregar retiros, dentro e fora do país, principalmente na América Latina. Numa destas viagens, à Colômbia, sentiu-se mal e teve de instalar um marca-passo para auxiliar seu coração, enfraquecido pelo pesado serviço que, com fidelidade, tinha prestado à Ordem. Desde então, nunca mais viajou a serviço. E, nos últimos meses de vida, precisando de cuidados especiais, sofria em silêncio em seu humilde quarto, sem o conforto que gozava em Roma como Ministro Geral da Ordem. Deste pobre quarto saiu somente para ser levado ao hospital. Ali, duas semanas depois veio a falecer, em sua solidão silenciosa, abraçado pela irmã Morte e pelo Cristo Crucificado.



Compartilhe: