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Evangelização no espírito catecumenal

Reinert

Iniciamos o segundo semestre no Instituto Teológico Franciscano com uma entrevista com o professor de Teologia sistemática, João Fernandes Reinert, que acaba de lançar seu livro Inspiração Catecumenal e Conversão Pastoral, pela Editora Paulus.

1 – Evangelização no espírito catecumenal, o que é?

Evangelização no espírito catecumenal significa entrar de corpo e alma no convite à conversão pastoral. Faço, aqui, memória de uma frase do Papa Francisco na Evangelii Gaudium: “Sonho com uma opção missionária capaz de transformar tudo, para que os costumes, os estilos, os horários, a linguagem e toda estrutura eclesial se tornem um canal proporcionado mais à evangelização do mundo atual que à auto-preservação” (EG, 27).

Resgatar o catecumenato é peça fundamental nesse processo de conversão pastoral de uma ‘Igreja em saída’. A inspiração catecumenal tem algo a oferecer a toda ação pastoral, converte-se em inspiração à totalidade da ação evangelizadora. Evangelizar no espírito catecumenal significa a constante atenção em (re) começar a partir de Jesus Cristo em todas as ações eclesiais. Começar a partir de Jesus Cristo é uma convocação fundamentalmente querigmática, é não pressupor a fé, não pressupor que as pessoas, quem quer que seja, já esteja iniciada. Se há necessidade de recomeçar a partir D’Ele, significa que em muitas ações eclesiais se têm ignorado essa dimensão fundamental da evangelização, bem percebido pela Conferência de Aparecida. “Sentimos a urgência de desenvolver em nossas comunidades um processo de Iniciação na Vida Cristã que comece pelo querigma e que, guiado pela palavra de Deus, conduza a um encontro pessoal, cada vez mais, com Jesus Cristo”.

 

2- Qual a importância da iniciação à vida cristã na renovação de nossas paróquias?

Paróquia não é apenas o lugar onde se realiza a iniciação à vida cristã. Nossas paróquias são convocadas a ser cada vez mais realidades querigmáticas e mistagógicas, ou seja, recuperar a centralidade de Jesus Cristo  em tudo o que ela faz e no que ela é. Paróquias burocráticas não são capazes que conduzir (mistagogia é o que conduz ao mistério) ao encontro pessoal com Jesus Cristo. Portanto, o espírito catecumenal é decisivo nesse processo de conversão da estrutura paroquial. O espírito catecumenal favorece à paróquia a conversão de vários elementos pastorais, como por exemplo: investir em itinerários pastorais, pois assim como iniciação à vida cristã não é curso, mas percurso de fé, as pastorais igualmente não são cursos, mas itinerários, processos, percursos de fé; dar maior atenção a cada pessoa em sua individualidade e não olhar apenas a massa, pois na metodologia catecumenal a pessoa, sua história, é prioridade absoluta; favorece uma nova compreensão da pastoral da acolhida. Umas das dimensões mais marcantes do percurso catecumenal está na acolhida eclesial, cuja densidade pode ser captada, por exemplo, na recepção calorosa da comunidade e do introdutor para com aquele que deseja iniciar o processo de iniciação à vida cristã, no ambiente amistoso e fraterno dos encontros, na atenção personalizada a cada pessoa, no envolvimento da comunidade, na acolhida a qualquer tempo do ano, no respeito ao ritmo e ao tempo do iniciante, etc.

Pode-se concluir que acolhida, no catecumenato, não são atos ou momentos. Acolhida catecumenal é fundamentalmente processo, algo contínuo e permanente. Trata-se de uma novidade, uma riqueza não encontrada com facilidade na história da pastoral. A acolhida catecumenal pode inspirar uma nova configuração de acolhida eclesial, oferece possibilidades para iluminar novos pressupostos pastorais de acolhida paroquial.

3 – Quais são os maiores desafios, hoje, para uma evangelização no espírito catecumenal?

São muitos, mas acredito que o principal deles é a dificuldade em romper com uma compreensão distorcida de que iniciação à vida cristã tem a ver somente com catequistas e com a pastoral catequética.  Iniciação, na verdade, é a permanente caminhada de fé e de conversão pessoal. A evangelização no espírito catecumenal quer colocar todos e tudo, pessoas e pastorais, estruturas e espiritualidades em constante iniciação e re-iniciação cristã. Para que isso aconteça é preciso alargar a compreensão de iniciação, que não é preparação para os sacramentos mas, sim,  preparação à vida cristã.

Outra dificuldade que merece a pena mencionar é o difícil envolvimento da comunidade eclesial no processo de iniciação à vida cristã de inspiração catecumenal. Se a comunidade não se envolve, se a comunidade não se sentir catequista coletivo, se a comunidade não se encantar, não conhecer, não se apropriar da proposta catecumenal, então, obviamente, as mais diversas atividades que a comunidade realiza não terá o sabor da novidade catecumenal.

4 – Ano do batismo. O que julga fundamental e imprescindível?

A diocese de Santa Cruz foi muito feliz ao escolher esse ano como o ano dedicado à reflexão do batismo. Trata-se de uma grande oportunidade de renovação para todos, chance de um banho de renovação de consciência eclesial para todos nós.

Fundamental nesse ano é trabalhar nas comunidades, pastorais e serviços a vocação de discípulos missionários. Decorrente disso, pode-se trabalhar a vocação ao serviço (igreja samaritana), a pertença eclesial, diante de uma realidade em que muitos estão na Igreja mas não se sentem Igreja, pode-se trabalhar a igualdade entre todos os sujeitos eclesiais, cuja fundamentação está, justamente, no batismo, que torna a todos povo de Deus.

No ano do batismo está nas mãos de todos enormes chances de ajudar os batizados a recuperarem o sentido mais profunda do seu batismo, que não é meramente um ato para apagar o pecado original, passagem do pagão para filho de Deus, mas fundamentalmente uma opção de vida, uma vocação, o início de nova vida, a qual chamamos vida cristã.

5 – Qual a relação entre o batismo e demais vocações?

Se acreditamos que toda vocação é um chamado pessoal de Deus, conclui-se que estar em comunhão com ele, ser iniciado na fé, viver bem o próprio batismo, fazer a experiência do encontro pessoal com Jesus Cristo é  condição necessária para ouvir a missão/vocação que Ele reserva a cada um de seus filhos. Pessoas iniciadas na fé, ou em processo de iniciação estão mais propensas a dar uma resposta mais consciente ao projeto de amor que Deus tem reservado a cada ser humano em particular. Adultos na fé, ou seja, pessoas iniciadas e evangelizadas, pessoas que fazem o encontro pessoal com Jesus Cristo têm mais facilidade em descobrir seu lugar no mundo e nos planos de Deus.

6 – Como recuperar a riqueza da simbologia e dos ritos do batismo e como ajudar as pessoas a viver a beleza do seu batismo?

Os sacramentos são sinais visíveis de uma realidade divina invisível. Os sacramentos são sinais sensíveis, ou seja, tocam nossa sensibilidade, nossa audição, nossa paladar, nossa visão. Daí a importância do rito bem celebrado, dos símbolos, cantos, ambiente, água em abundância, etc.

A partir da compreensão que se tem do batismo, os símbolos e ritos batismais serão mais valorizados ou menos valorizados. Se compreendemos o batismo como mergulho sacramental e existencial na pessoa de Jesus Cristo e na comunidade eclesial, então a realidade da água, por exemplo, será muito valorizado. Caso contrário, a escassez da água no rito batismal será ‘compreensível’, por ser fruto de uma compreensão que não faz jus ao que o batismo realmente significa. Outro exemplo, na mesma perspectiva, é a valorização e qualidade/dignidade da pia batismal.

Eu diria que se torna muito difícil valorizar os ritos e símbolos batismais sem, ao mesmo tempo, trabalhar uma nova compreensão do sentido do batismo e da vida cristã. Por outro lado, valorizar os símbolos e ritos do batismo são caminhos formativos para favorecer a tão desejada renovação do sentido teológico do batismo.

Alguns costumes pastorais não ajudam na consciência batismal dos fieis, como é o caso, por exemplo, da celebração do batismo ser celebrado à parte, sem a presença da comunidade. Bem sabemos do valor pastoral do rito do batismo, da renovação das promessas batismais, que são verdadeiras escolas de fé, genuínos momentos (re) iniciáticos para toda a comunidade. Celebrações sacramentais à parte podem reforçar o clima do intimismo religioso, tão acentuado na religiosidade atual.



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