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Geral - 08/12/2015

De Esperança em Esperança: Escatologia.

MANZATTO, antônio; passos, joão Décio; villac, Sylvia. De Esperança em Esperança: Escatologia. 2ª ed. São Paulo: Paulus, 2011. 152 p., 135 x 210mm – ISBN 978-85-349-3020-8

Esperança. O ser humano vive neste mundo pela esperança. Dentro do universo das religiões ou alheio a ele, a felicidade multifacetada da humanidade é um desejo profundo de muitos. Conjugando-se esperança humana e escatologia cristã, vislumbra-se uma obra que propõe expressar aquela expectativa que se dá pelo ardente tema da esperança, pela espera cristã, pela fé inabalável na concretização do que se deseja. Sim, o livro aponta que “o cristianismo oferece uma resposta e um fundamento para nossa esperança. Afirma que as esperanças humanas têm sentido. E o sentido é Jesus Cristo”.

A diferença de linguagem entre os capítulos do livro evidencia o aglomerado de textos de três autores católicos distintos. Compõem esse pequeno mutirão o filósofo Antônio Manzatto, presbítero da Arquidiocese de São Paulo e atual diretor da Faculdade de Teologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), doutor e mestre em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina (Bélgica); o professor João Décio Passos, bacharel e livre-docente em Teologia, graduado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), mestre em Teologia pelo Instituto São Paulo de Estudos Superiores, igualmente mestre em Ciências da Religião pela PUC-SP, e doutor em Ciências Sociais pela referida universidade; a missionária Sylvia Villac, mestre em Teologia Pastoral pelo Instituto Católico de Paris, assessora do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos (o CEBI, localizado em São Leopoldo-RS) e do Instituto Teológico Brasilândia (o ITEBRA, em São Paulo-SP).

Integrando a Coleção Teologia Sistemática da editora, a obra é organizada em cinco capítulos, assim denominados: 1) a escatologia do povo e das religiões, 2) a escatologia cristã, 3) novíssimos, 4) a parusia e o sentido da história e 5) a esperança cristã em nossa vida. De esperança em esperança, os autores confessam que “é preciso criar uma reserva escatológica que permita ir além dos imediatismos da sociedade de consumo e da antiescatológica teologia da prosperidade, pois o ser humano só encontrará sua felicidade no infinito verdadeiro que é Deus”.

A visão escatológica do catolicismo romano é o ponto inicial do primeiro capítulo. A partir dela, o Autor busca uma aproximação com outras perspectivas religiosas acerca da esperança (Testemunhas de Jeová, Hinduísmo, Budismo, Hare Krishna, Seicho-No-Iê, Espiritismo). Nessa avizinhação da problemática, a escatologia experimentada pelos cristãos e pelas religiões evidencia a distância da “ciência do eschaton” (o futuro absoluto) do povo, que o aguarda, repleto de esperança pelo fim do provisório. “As religiões respondem e imaginam esse futuro absoluto cada qual à sua maneira, de acordo com a época e o lugar. Todas falam de uma vitória final do bem e oferecem um caminho para alcançar esse último bem”. Por isso, a obra aborda a visão escatológica tradicional, ou seja, a maneira de o catolicismo popular explicar o fim, a partir do ponto de vista específico da fé, que estimula o sentimento religioso pelo desejo de estar no céu e o medo de se encontrar no inferno, que fala a linguagem do coração e da razão, da teologia do temor a Deus. Portanto, “a esperança do céu tem pouco a ver com a esperança de uma sociedade nova e, às vezes, até encobre essa esperança, quando se acredita que o céu que virá depois da morte recompensará os sofrimentos aceitos com paciência na terra”.

Mediante a busca das raízes antropológicas (grega e semita), bem como da teologia bíblica (do Antigo e do Novo Testamento), o segundo capítulo foca-se na escatologia cristã. Considerando a ressurreição de Cristo como o dado fundamental da fé, o Autor avança até a consumação do Reino de Deus, pontos centrais da escatologia, ontem e hoje. Primeiramente, os conceitos grego (dualista) e semítico (unitário) de morte são abordados. Depois, o aspecto teológico da morte (física, espiritual, eterna) é apresentado. Desse ponto, solucionando as tendências exegéticas do evento (interpretação tradicional, moderna positiva e hermenêutica indireta), a ressurreição de Jesus é exposta como a base da fé cristã escatológica, pois Cristo ressuscitou. Assim, após distinguir ressurreição de reencarnação, bem como considerar o clima apocalíptico que influenciara profundamente a mentalidade dos judeus, o Reino de Deus é identificado como a grande expectativa escatológica do povo de Deus.

Qual seria o sentido cristão dos últimos acontecimentos da existência pessoal? Bem, com os conceitos de “vida com Deus”, “vida sem Deus” e “chance de viver com Deus” – céu, inferno e purgatório, respectivamente – é formado o capítulo três. Denominados pela tradição teológica de Novíssimos, a existência definitiva após a morte é apontada como um mistério reservado a Deus, pois, como declarou o Autor, os Novíssimos “visam mostrar que a vida depois da morte tem um sentido e não uma fotografia do céu ou do inferno. Fazer uma teologia das coisas últimas não significa resolvê-las ou fazer uma futurologia. Ao contrário, significa apontar para o mistério que elas são por si mesmas”. Por conseguinte, destaca-se a explicação de vida eterna a partir do Antigo Testamento (o sheol, traduzido pelos gregos como Hades). É interessante considerar que o Oriente Médio antigo contemplava o mundo como estando estruturado em três camadas: “os céus, a terra e o mundo subterrâneo ou ínferos. Os céus são a morada de Deus; a terra, a morada dos homens; e os ínferos, dos mortos”. O Autor ainda demonstra o sentido de vida eterna no Novo Testamento, salientando o conceito de inferno ou morte eterna e estabelecendo a relação com a doutrina católica do purgatório, uma vez que “a índole escatológica da vocação na Igreja coloca o purgatório como um dos três estados eclesiais – a Igreja do céu é a triunfante; a da terra, a peregrina; a do purgatório, a padecente”.

O quarto capítulo aborda a relação entre a parusia (presença ou chegada) e o sentido da história (filosófico e/ou teológico, como sentido da existência do ser humano). A partir do sentido exegético (termo que remonta à cerimônia de recepção de um rei visitante na cidade) e bíblico (o Filho do Homem e a ressureição), o Autor subscreve a doutrina escatológica católica que afirma a presença do Reino de Deus aqui na terra em mistério, pois, “chegando o Senhor, ele se consumará, mas ignoramos o tempo da consumação”. Desse modo, como uma caminhada projetada para um futuro certo que é o próprio Deus, se estabelece que “o fim do mundo será quando tudo chegar a Deus, descansar Nele e unir-se a Ele”.

O quinto e último capítulo pretende ser o mais prático da obra, uma vez que oferece a aplicação da esperança cristã na vida do leitor, na esperança humana do dia a dia, na esperança de mundo e sociedade novos. Ora, se o ser humano é um ser de esperança ou utópico, o Autor conclama à abertura para o futuro absoluto, à imaginação, a seu desejo criativo e às aspirações de um futuro diferente, repleto de justiça, igualdade e fraternidade. Por isso, a última parte da obra “pensa sobre viver numa história aberta para o Deus que vem e que virá é afirmar que já não há distância entre as esperanças humanas, as utopias políticas e as esperanças escatológicas”. Ademais, de esperança em esperança, o Deus da esperança ensina nas páginas da Bíblia que “a esperança cristã não é alienação perante a realidade, mas o motor da ação do cristão, da mesma maneira que a esperança de Deus o engaja em sua ação em favor dos seres humanos”. Essa é a denominada espiritualidade da esperança, a ser vivida nas celebrações, no dia a dia, na solidariedade e no sofrimento.

Apesar de os próprios autores estabelecerem que “não podemos transformar nossa esperança em ideias e discussões”, o livro precisa ser avaliado. Ao final da leitura, deve-se reconhecer que é perspicaz olhar a escatologia pelo viés da esperança, como uma caminhada para um estágio definitivo. Já dizia Aristóteles que “a esperança é o sonho do homem acordado”. Por isso, a esperança por uma relevante obra de cunho escatológico foi alcançada. Deve-se reconhecê-la, porém, mais como um texto pastoral ou devocional, do que teológico ou técnico.

“De esperança em esperança” é uma obra confessional cristã católica. “A esperança cristã funda-se nos testemunhos da fidelidade divina, manifestada nos inumeráveis sinais da presença atual do reino de Deus na História”. Porém, é estranho que não se fale de inferno, condenação e julgamento como possibilidades reais para aqueles que não colocaram sua esperança em Jesus. O purgatório é o elemento que mais se aproxima desse aspecto. Para os autores católicos, ao que parece, a esperança supera a condenação. Também é perceptível que a escatologia apresentada alude à vitória do bem em termos sociais. A esperança do céu, que não se pode apagar, é interpretada como esperança e luta por um mundo e uma sociedade novos. A escatológica parusia é trazida para hoje e a esperança torna-se o motor de toda a vivência cristã nas rotinas e lutas diárias.

Ângelo Vieira da Silva*

Rua Olegário Maciel, 270, Centro

35.230-000 Resplendor – MG/Brasil

E-mail: revavds@gmail.com

 



* Mestre em Ciências das Religiões pela Faculdade Unida de Vitória, ES; Bacharel em Teologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, SP. Pesquisador na área de apocalíptica, pseudoepígrafos (Enoque etíope), escatologia (milenarismo) e angelologia.



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