PUBLICAÇÕES



NEWSLETTER
Receba as nossas novidades por e-mail! Clique aqui.

Artigos, Destaques - 06/07/2017

Da Natureza Ética da Autoridade à Cultura Imoral do Autoritarismo

Birds_Bald_Eagle_460397

“um pássaro sentado em uma árvore nunca tem medo que o galho quebre, porque sua confiança não está no galho, mas na força de suas próprias asas”.

A ideia de escrever sobre autoridade e autoritarismo, surgiu à partir de três fatores distintos: 1º. quando recebi por WhatsApp a imagem de uma bela águia pousada altaneiramente num galho muito fino e visivelmente fraco. Junto à imagem estava escrito: “um pássaro sentado em uma árvore nunca tem medo que o galho quebre, porque sua confiança não está no galho, mas na força de suas próprias asas”. Quanta beleza, quanta verdade e quanta complexidade nessa pequena frase. 2º. de acordo com o meu entendimento, uma das crises que o Brasil atravessa, é justo uma imensa crise de autoridade. 3º. ao receber o convite para participar de um debate na Rádio Nacional AM, sobre “Exercício da Autoridade” (publicarei em breve o áudio do debate ).

Autoridade e autoritarismo são dois tipos de poder, dois tipos de dominação. A autoridade é o poder, a legitimidade, através do conhecimento, da competência, de um determinado cargo ocupado e afins. O autoritarismo, é o uso abusivo e desmedido da autoridade. É a imposição de algo pela força, para cumprir a própria vontade ou vaidade, sem critérios claros e legais. É antidemocrático, antissocial e, podemos dizer até que, é imoral.

A autoridade repousa sobre o tripé: autonomia, ética e autoconhecimento. Autonomia é a capacidade de governar-se pelos próprios meios. Ou ainda, segundo o filósofo Prussiano Immanuel Kant, é a capacidade da vontade humana de se autodeterminar segundo uma legislação moral por ela mesmo estabelecida, livre de qualquer fator estranho ou exógeno. Ética é um conjunto de valores morais e princípios que norteiam a conduta humana na sociedade. É o modo de ser de um sujeito. Autoconhecimento, é o conhecimento que se tem acerca de si mesmo. A autonomia e a ética, podemos encontrar seus fundamentos na educação, aquela que cabe a família na infância e juventude de seus filhos. O que é educar? É fazer pela criança tudo aquilo que ela não pode fazer por ela mesma. Em outras palavras, educar é dar amor e dar limites. É fazer as proibições para garantir a integridade física e moral da criança. Um recém-nascido, desconhece os perigos, os valores morais, os limites do próprio corpo, a noção de bem-estar do outro, dentre tantas outras coisas. É no ato de educar que, os filhos, por um lado, se sentem protegidos e amados e, por outro, irão paulatinamente introjetando os valores morais e sociais, ao mesmo tempo em que, vão construindo sua própria autonomia, seus padrões éticos e se autoconhecendo. De acordo com I.Kant, o homem só pode tornar-se homem pela educação. Eu complementaria dizendo: o homem só pode tornar-se humano, através de uma boa educação. Não se pode desconsiderar o fato de que, todos os homens, ao nascer, necessariamente precisam de cuidados e de limites. Caso contrário, não sobreviveriam. A questão é qual educação receberam. Porém, nossas crianças terem recebido uma boa educação, não é uma garantia de um adulto autônomo, ético e conhecedor de si mesmo. Uma boa educação apenas aumenta as chances de. Não esqueçamos do que nos diz o filósofo francês Jean-Paul Sartre: não importa o que fizeram comigo, mas o que eu fiz daquilo que fizeram comigo. Ou ainda, diz ele: o homem é as suas escolhas. O homem é livre para escolher. Desta forma, a criança pode aprender desde muito cedo, o que é permitido e o que é proibido, o que se faz e o que não se faz, o que é o bem e o que é o mal para si mesma e para a sociedade, entretanto, ao longo de seu percurso existencial, ele irá escolhendo seu agir no mundo. Via de regra, o homem que escolhe agir em consonância com o bom uso da moral, dos valores e dos costumes, é aquele que respeita o outro, que é conhecedor de seus limites e potencialidades e, tem um projeto de vida. A confiança está em si mesmo. Portanto, são pessoas que têm autoridade sobre si mesmas e, em certas situações, autoridade sobre aqueles que o rodeiam. Por outro lado, o homem que escolhe agir desconsiderando a moral e atendendo tão somente aos apelos de sua vaidade cega e exacerbada, é aquele que não respeita o outro, aliás, o ignora, desconhece seus próprios limites e potencialidades e, não tem um projeto de vida. O que importa, é o momento. Via de regra, essas pessoas agem pensando tão somente em si mesmas, na saciedade de suas vontades e pelo uso da força, seja pelo porte de uma arma de fogo, seja pela força do cargo político que ocupam, por exemplo. A confiança não está em si mesma, está no exterior, na arma, no cargo etc. São pessoas que, na grande maioria das vezes, são autoritárias e, como tal, imorais.

É importante entendermos que, a autoridade é situacional e o autoritarismo, é permanente. Uma pessoa que tem muito conhecimento e é Phd, por exemplo, em física quântica, ela é uma autoridade no assunto. Porém, quando esta mesma pessoa está assistindo a uma palestra com um professor Phd sobre a filosofia de Arthur Schopenhauer, nessa situação, a autoridade é o professor. Não que o físico tenha deixado de ser autoridade, mas naquele momento, a autoridade pelo conhecimento que está sendo exercida, é a do professor Phd em Arthur Schopenhauer. Um pai que em casa exerce sua autoridade sobre a educação do filho, junto aos amigos, ele não deixa de ser autoridade para o filho, mas na situação com os amigos, ele não está exercendo sua autoridade. Isso porque, seja em qual for a situação, o físico é físico, o filósofo é filósofo e o pai é pai. Só é necessário saber onde exercer tais funções. Isso é saber reconhecer sua própria autoridade e reconhecer a autoridade dos outros. Isso é liberdade, isso é cidadania, isso é reconhecer a beleza que habita em nós mesmos e a beleza que habita no outro. O campo existencial se amplia. Já a pessoa autoritária, ela o é. Esteja onde estiver, a vontade, o conhecimento, os caprichos dela devem sobrepujar a de todos os demais. Ela impõe. As pessoas autoritárias só circulam onde elas sabem que, de alguma maneira, irão conseguir impor suas ideias. O campo existencial fica restrito. Porém, se ousam circular por outros ambientes, nos quais suas ideias não irão suprimir ideias diferentes, via de regra, provocam mal-estar, descontentamento. O autoritário, é um narciso perigoso, isso porque, se narciso acha feio tudo que não é espelho e, ainda, morreu afogado contemplando sua própria imagem refletida nas águas do rio, o narciso perigoso, não admite tudo o que é diferente e, sobretudo, usa da força para aniquilar. Será que se o mito de narciso tivesse sido criado hoje, ele teria morrido, teria matado ou chutado com veemência as águas do rio? A resposta exata, eu não sei, mas com certeza, não teria morrido. O que estamos testemunhando, por exemplo, na política, são narcisos perigosos, matando impiedosamente muita gente de fome, vergonha, preocupação etc., um verdadeiro genocídio moral, físico e social e, chutando com veemência a Constituição Brasileira. Eu, Virgínia Ferreira, aprecio, enquanto mitologia grega, o Mito de Narciso que, estava voltado tão somente para a contemplação de sua própria beleza. Este narciso não fazia mal a ninguém e está apenas nos livros. Entretanto, repudio com veemência, o narciso perigoso, que não faz parte da mitologia, mas que faz parte da realidade, ao fazer um devastador e vexatório atropelamento na sociedade e, que em breve, estará nos livros, fazendo parte da história brasileira. O que me causa um certo alívio, por um lado, é saber que, esses narcisos perigosos estão sentados, confiantes não na força de suas asas (até porque suas asas nunca se movimentaram para alçar voos), mas na força do galho, e o vento vem ganhando força e, quem sabe eles serão derrubados. Por outro, também sei que, outros narcisos perigosos se uniram e estão tentando segurar o vento. Mas, como narcisos perigosos, são tão imbecis que, não percebem que não há nada que consiga conter as forças da natureza, aqui, leia-se a força do povo, basta que este saiba e queira usar de sua potência e de sua autoridade. Será que o povo brasileiro não confia na força de suas próprias asas ou será que não pretende alçar voo e, se contentará em ficar segurando o galho no qual estão se equilibrando os narcisos perigosos? Será que o povo não percebe que ao ficar segurando o galho para os narcisos perigosos permanecerem se equilibrando, ele, o povo, não sairá do lugar, além de ficar levando grotescas e malcheirosas defecadas na cabeça? Eu, Virgínia Ferreira, uso as forças de minhas asas para voar, balançar o galho e contribuir com todos aqueles que estão tentando arduamente derrubar os narcisos perigosos. Se conseguiremos ou não, só o tempo nos dirá. Sei que talvez sejamos uma minoria, mas, continuaremos usufruindo de nossa liberdade, voando, confiando na força de nossas asas e, aos poucos e com determinação, aumentando a força do vento. Uma vez perguntaram a Madre Teresa de Calcutá: A senhora não acha que seu trabalho é apenas uma gota no oceano ? Ela calmamente respondeu: é sim, mas sem essa gota, o oceano seria menor”.

Finalizo, propondo a seguinte analogia: a autoridade está na confiança na força das asas, seja no voo, no pouso, no sentar num galho. O autoritarismo, está na confiança no galho, em que qualquer vento o desequilibra, o assusta, podendo até mesmo o derrubá-lo. Quando o que somos está pautado no que está fora, não há autonomia, autoridade, tranquilidade, nem felicidade. Não somos donos de nós mesmos. Já quando o que somos está pautado no que está dentro de nós mesmos, temos autonomia, autoridade, uma certa tranquilidade e a felicidade está até ao nosso alcance. Somos conhecedores e confiantes em nossas potencialidades e senhores do que queremos. Somos senhores de nós mesmos. Nossas ações são éticas e nossos voos seguros. Ou confiamos na força de nossas próprias asas ou confiamos no galho ? Eis a questão!!



Compartilhe: