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Geral - 11/04/2013

Concílio Vaticano II – História, herança, inspiração

Concílio Vaticano II – História, herança, inspiração, Henrique Cristiano José Matos. Ed. O Lutador, Belo Horizonte 2012, 1 vol. br. 240 x 170mm, 154 p.
A Editora O Lutador nos brinda com mais uma publicação do Frater Henrique C.J. Matos, agora sobre o Concílio Vaticano II. O tema do Concílio, nos 50 anos de seu início (11.10.1962), se tornou na Igreja quase que obrigatório. Na verdade, desde que saiu do forno, em 1965, as interpretações divergentes estão em pauta. Continua o conflito de interpretações entre os adeptos de uma hermenêutica de continuidade e os da descontinuidade ou ruptura. Creio que um pouco de esforço poderia distinguir entre o objeto próprio da hermenêutica da continuidade, os elementos estruturais da Igreja, que permanecem, e o objeto próprio da hermenêutica da ruptura, aqueles elementos conjunturais, que fazem a moldura histórica da instituição. Evidente, que nosso A. se coloca nessa perspectiva, documentando a grande passagem de uma moldura histórica pós-tridentina, ainda pré-moderna, para outra moldura histórica, agora pós-vaticano II, aberta ao mundo contemporâneo.
Em vista disso, é de fundamental importância retomar a própria história do Concílio, perceber seus primeiros impulsos e orientações, que alentaram a sua realização na década de 60 do s. XX. É o que pretende fazer nosso A. com a maestria e competência que sempre distinguiram seus escritos. Ele apresenta seu livro em quatro capítulos.
No primeiro faz a Contextualização histórica do evento (p. 13-32), para nos ajudar a compreender melhor o desenvolvimento do próprio Concílio. Neste ponto, o A. se detém na descrição do pós-II Guerra Mundial e dos efervescentes anos dourados da década de 60 do s. XX. Do ponto de vista eclesial, destaca a figura hierática de Pio XII, morto em 1958, e a passagem para o pontificado de João XXIII, eleito em 28 de outubro do mesmo ano. Na época, alguns da imprensa diziam que seria um “papa de transição” e, com certo tom de humor, que teria sido “um passo em falso do Espírito Santo” (p. 37).
O segundo capítulo, mais longo (p. 35-92), tem como tema o 21º Concílio ecumênico. De início, apresenta uma cronologia do Concílio desde seu inesperado anúncio em 25 de janeiro de 1959, passando por seu início em 11 de outubro de 1962, até seu término no dia 8 de dezembro de 1965. Depois de quatro sessões, um novo espírito anima o corpo eclesial, suscitando muitas esperanças de renovação. Um destaque deste capítulo é o Discurso Inaugural de João XXIII. Como consta de um depoimento do próprio Papa, não foi escrito por peritos, mas por ele mesmo, é de sua própria lavra (cf. p. 48-54). Esse discurso é uma chave importante para compreender o conjunto do Concílio.
O terceiro capítulo é dedicado à América Latina e ao Brasil (p. 95-113). Nele o A. trabalha a participação dos Bispos do Brasil no Concílio e sua recepção no Continente latino-americano. É de se ressaltar aqui três pontos importantes para compreender a Igreja no Continente e o caminho que o Concílio tomou entre nós. O primeiro é o modo de fazer teologia partindo da realidade do ser humano no Continente e não de uma ideia abstrata dele. O segundo aspecto são as práticas novas que vão surgindo, como as CEBs, as novas pastorais, entre outras, que expressam as grandes intuições conciliares. Por fim, não poderia deixar de ressaltar, a opção pelos pobres como resposta à situação de “injustiça institucionalizada” no Continente.
O quarto capítulo vem com outro estilo. Fala do Pós-concílio (1965-2012) “a partir da própria experiência”. Assim, o A. se coloca dentro dessa história. Como ele mesmo diz: “se trata de um critério subjetivo” (p. 117) – nem por isso menos válido. Ele lembra a trilogia que publicou em 2010: Um Religioso em Mudança de Época (da mesma Ed. O Lutador). Foge de uma periodização da etapa pós-conciliar, como a fez o Card. K. Lehmann (Concilio ecumenico Vaticano II 1962-2002. Il quarto Tempo, em: Il Regno 18 (2002) 632s.). H. Matos prefere enumerar alguns “indicadores” que, como flash, delimitam o quadro cambiante desde o pré-concílio, no marco do pós-tridentino, às grandes figuras dos Papas desses 50 anos: João XXIII, Paulo VI, João Paulo I e II e, agora, Bento XVI. Fecha os indicadores com esperança: “uma Igreja aberta ao futuro” (p. 140s).
Segue-se uma breve conclusão (p. 143s) que reforça a exigência de levar adiante a herança conciliar em novos tempos. Acrescenta ainda um ilustrativo cronograma do Concílio e uma boa bibliografia (p. 147-152), para quem deseja aprofundar sua compreensão da história do Concílio.
O conjunto do livro, de estilo claro e direto, se apresenta agradável à leitura, com ilustrações das principais figuras e acontecimentos da época. O A. apresenta o livro como história, mas parece que é mais do que isso. É fiel aos fatos históricos, que são interpretados numa perspectiva que vai além da história, que é o interesse pela renovação eclesial impulsionada pelo próprio Concílio. Isso não é difícil de verificar. Mas não parece ser um “defeito”. Creio que aqueles que fizeram “a grande transição” (o autor dessa resenha se coloca aqui) do clima rígido do pós-tridentino ao novo clima inaugurado pelo Vaticano II, segue a luta pela implementação da volta às fontes primeiras do cristianismo bimilenar e da vida eclesial e do aggiornamento, da renovação sem cessar de uma Igreja que se quer servidora da humanidade.
Para uma próxima edição sugerimos fazer alguns pequenos reparos. Na p. 14, a data em que o presidente Kennedy foi morto não foi 1962, mas 1963 (na linha seguinte está certo). Na p. 19 J. Comblin ficou mais moço. Ele nasceu em 1923 e não em 1932. À p. 38 diz que uma semana depois do anúncio, L’Osservatore Romano publicou uma pequena nota na primeira página. Na verdade, foi no dia seguinte, no número que saiu no dia 26 de janeiro de 1959. Na p. 57 se diz que T. de Chardin recebeu um Monitum do Santo Ofício de 1962. Ele não recebeu. Já tinha morrido em 1955. Foi post mortem.
Em tempos de “relativização do Concílio”, tanto para os que alimentam saudades do passado quanto para os que já dão o Concílio Vaticano II como favas contadas e trabalham para outro Concílio, o livro de H.C.J. Matos adquire importância maior, no sentido de alimentar a esperança na perspectiva de uma hermenêutica da descontinuidade do legado conciliar, de uma renovação da Igreja que realmente expresse a intenção mais profunda do Concílio Vaticano II para o futuro. Assim, recomenda-se à leitura de todos os que desejam aprofundar esse caminho de renovação da Igreja, sobretudo os leigos, que hoje anseiam por formação qualificada.
Cleto Caliman
Av. 31 de Março, 435
Bairro Dom Cabral
30535-000 Belo Horizonte, MG/BRASIL
E-mail: ccaliman56@gmail.com



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