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Geral - 12/06/2017

BOFF, Leonardo. Direitos do coração: como reverdecer o deserto. São Paulo: Paulus, 2015, 239 p., 135 x 210mm – ISBN 978-85-349-4256-0.

Teólogo e filósofo, corredator da Carta da Terra e portador do prêmio Nobel Alternativo da Paz do Parlamento sueco de 2001, Leonardo Boff foi um dos iniciadores da Teologia da Libertação e de uma ecoteologia da libertação. Escreveu mais de oitenta livros, entre os quais se destacam: Jesus Cristo Libertador; Igreja: carisma e poder; Ecologia: grito da Terra, grito dos pobres; Francisco de Assis e Francisco de Roma.

Nessa recensão, apresentamos seu livro, Direitos do coração: como reverdecer o deserto. O autor procura resgatar a inteligência cordial que, junto com a inteligência intelectual, orienta a vida humana, uma vez que a inteligência cordial, nos últimos séculos, foi relegada, sob o pretexto de que obscurece a objetividade da ciência. Todavia, devido à crise ecológica hodierna, com as ameaças que pesam sobre a Casa Comum, o ser humano precisa incorporar novamente a razão cordial.

Para desenvolver esse livro, Boff alerta-nos, antes de tudo, quanto à urgência de despertar o coração para a sensibilidade, a compaixão, a solidariedade e o amor à Terra, aos seus ecossistemas e a todos os seres. A mente, sozinha, não disporia de todos os instrumentos suficientes para debelar a atual crise, necessitando, para tanto, do coração, ao qual compete a tarefa de mover o ser humano para a ação e buscar os melhores caminhos para nosso salvamento, motivo pelo qual se fala dos direitos do coração.

Considerado a sede dos valores, do amor e do cuidado, sem os quais não nos movemos para salvar a vida e o futuro de nossa civilização, o coração assemelha-se a uma energia que move a dinâmica entre as duas partes do livro, sobretudo o desenvolvimento dos capítulos da segunda parte: a primeira parte se refere aos fundamentos dos valores humanos, e a segunda ocupa-se dos movimentos segundo o coração.

Boff desenvolve “os fundamentos” na primeira parte, mediante treze capítulos, sendo o oitavo capítulo – “a mais longa viagem: rumo ao próprio coração” – o ponto fulcral tanto da primeira parte quanto de todo o livro. Consoante o autor, nesse capítulo da mais longa viagem, “não se chega ao coração do coração sem passar pelo afeto e pelo amor” (p. 90). O ícone dessa travessia seria Santo Agostinho, devido a seu desejo incansável que o tornou peregrino infatigável do Infinito.

Com base no rumo do próprio coração, o livro alarga-se mediante outros capítulos, por meio dos quais Boff, antes de qualquer coisa, observa a necessidade de resgatar a sensibilidade ecológico-social, ouvindo tanto o grito da Terra quanto o grito dos pobres (cap. 1). Ulteriormente, a reflexão encaminha-se para o tema do homem: a identidade humana como nó de relações totais (cap. 2) e a característica humanizadora e sacramental de comer juntos (cap. 3). Conquanto comamos juntos, a sede permanece, porque é infinita, razão pela qual só um Infinito sacia a sede humana (cap. 4).

O Autor adverte que o futuro da humanidade passa fundamentalmente pela convivialidade que se entende como a capacidade de fazer conviver as dimensões de produção e de cuidado, de afetividade e de compaixão, de liberdade e de fantasia (cap. 5). Em seguida, ele apresenta, nessa busca incansável pela autorrealização (cap. 7), uma lógica aparentemente paradoxal, segundo a qual, quanto mais perdemos, mais ganhamos (cap. 6), numa alusão ao arquétipo mais ancestral da psique humana: o caminho a caminho de nós mesmos (cap. 9).

O livro, antes de encerrar a primeira parte, aborda a realidade misteriosa do deserto que cada ser humano tem que atravessar em busca de sua “terra prometida” (cap. 10). Nessa travessia, emergem alguns valores éticos, entre os quais o respeito universal de uns para com os outros (cap. 11), o cuidado e a sustentabilidade como pilastras que formam um novo mundo (cap. 12), cuja nova aliança com a Terra reside no regate da dimensão do sagrado, que não é uma coisa, mas uma qualidade das coisas (cap. 13).

Depois da viagem mais longa ao próprio coração, no oitavo capítulo da primeira parte, o Autor, na segunda parte, regressa ao tema do coração, como indica o título, “o pulsar do coração”, em que cada capítulo aborda uma dimensão do coração, a partir de sua dinâmica interna. Sem embargo, antes de tudo, parece que Boff procura responder às seguintes perguntas: que realidade move o coração? Como conservá-la?

Para responder a esses questionamentos, o Autor apresenta o amor como a força maior existente no universo e nos seres vivos, já que ele exerce uma força de atração, união e transformação, movendo o céu, as estrelas e os corações humanos (cap. 1). Para garantir esse amor (cap. 2), o autor nos orienta a cultivar a ternura, porque ela é a seiva do amor: “sem o azeite da ternura, não se alimenta a chama sagrada do amor” (p. 157).

Boff, nos capítulos seguintes, apresenta alguns sons da pulsação do coração: o primeiro que se percebe seria a carícia, que constitui uma das expressões supremas da ternura e do amor entre duas pessoas (cap. 3); depois, a cordialidade no sentido da capacidade de auscultar o coração alheio (cap. 4); a necessidade do cuidado com o amor e com a amizade, evitando a indiferença (cap. 5); mais adiante ele recupera a tese de José da Trino, conhecido como Profeta Gentileza: gentileza gera gentileza (cap. 6).

Como discorrer a respeito do coração sem considerar as dores e os sofrimentos alheios? Por isso, o autor invoca a mais humana das virtudes, que é a com-paixão: ela “implica assumir a paixão do outro. É pôr-se no lugar do outro para estar junto dele, para sofrer com ele, para chorar com ele, para sentir com ele o coração despedaçado” (p. 200). Ou seja, a segunda atitude afim à compaixão é a solidariedade (cap. 7).

Mesmo com as paixões, a vida tem sabor e sentido. Considerando que a festa tem que ser preparada e, somente depois, celebrada (cap. 8), o Autor passa a ocupar-se com o tema da festa, porquanto ela “revela o que há ainda de infantil e mítico em nós no meio da maturidade e da prevalência da fria racionalidade” (p. 207). A festa, em todo o caso, necessita de rito, na medida em que ela se move dentro de um mundo simbólico, feito de ritos e símbolos, a exemplo dos Jogos Olímpicos Mundiais (cap. 9).

Para surpresa do leitor, chegando ao fim da segunda parte, no décimo capítulo, Boff traz à baila da reflexão teológica o tema inusitado do “humor”. De acordo com o autor, “o humor é próprio só dos seres humanos” (p. 223); por isso ele serve inclusive de termômetro da saúde psíquica e espiritual: “quem vive centrado em Deus tem motivo para cultivar o humor. Relativiza as seriedades terrenas (…) e é livre de preocupações” (p. 226).

No intuito de terminar o livro, certamente um belo e profundo testamento espiritual recomendável para todos os leitores, Boff faz duas conclusões. Na primeira, ele aborda o tema da beleza, a partir da lição de Dostoievski com a obra O idiota, segundo a qual “a beleza salvará o mundo”. Na segunda conclusão, como um mestre espiritual, o Autor oferece ao leitor um decálogo do coração: dez direitos do coração, aliás, dez conselhos para cuidar do próprio coração, para assim reverdecer o deserto, em conformidade com a proposta do livro.

Carlos Rafael Pinto*

Av. Dr. Cristiano Guimarães, 2127

Planalto

31.720-300 Belo Horizonte – MG/BRASIL

E-mail: carlosrafaelbm@gmail.com

* Mestrando em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (BH – MG).



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