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Geral - 12/06/2017

Bíblia Sagrada: nova versão transformadora. São Paulo, Mundo Cristão, 2016, 1072 p., 135 x 210mm.

Saudando esta nova edição da Bíblia, com o subtítulo significativo “Nova Versão Transformadora”, começo citando alguns parágrafos da página de “Apresentação”.

“Há diversas edições da Bíblia em português. Algumas preservam o vocabulário e a sintaxe de séculos passados. Outras são atualizações de edições brasileiras e portuguesas de outrora. Há ainda versões mais recentes e paráfrases que facilitam a leitura com expressões idiomáticas comuns e vocabulário simples.

A Editora Mundo Cristão, fundada em 1965, sempre publicou Bíblias. Editou a Bíblia Viva, em 1981, e a Nova Bíblia Viva, em 2010. Além dessas paráfrases, editou também dezenas de Bíblias devocionais e de estudo, dirigidas aos mais variados segmentos e usando textos licenciados de sociedades bíblicas. Ao longo dos anos, fomos percebendo a necessidade de uma versão que combinasse rigor acadêmico na tradução das línguas originais (hebraico, grego e aramaico) e linguagem fluente e comunicativa, tanto para quem já conhece a Bíblia e como para uma nova geração de leitores.

Concluímos que havia espaço para uma nova versão que trouxesse ao leitor o que de melhor existe em erudição bíblica e os critérios mais recentes de seleção de fontes textuais; tudo isso, com linguagem de fácil compreensão para quem fala português hoje. Juntamente com os professores Carlos Osvaldo Cardoso Pinto (1950-2014), doutor pelo Dallas Theological Seminary, e Estevan F. Kirschner, doutor pela London School of Theology, constituímos uma equipe de tradutores e revisores cristãos, especializados nas disciplinas essenciais para a execução do projeto […].

Cremos que esta edição da Bíblia sagrada apresenta a Palavra de Deus com clareza e fidelidade. Publicamos a NVT, orando para que Deus a use para comunicar sua verdade eterna à Igreja e ao mundo, de forma marcante e transformadora”.

No final dos parágrafos citados aparece o adjetivo “transformadora” sem maiores explicações, mas significativamente expressando a forma pela qual, segundo a oração dos editores, Deus queira usar esta Bíblia para comunicar a sua verdade eterna à Igreja e ao mundo. “De forma transformadora”, isto é, com o poder de transformar os corações e as vidas.

Ainda na “Apresentação”, na frase inicial, estranhei que os “arqueólogos” sejam mencionados em primeiro lugar, na lista daqueles por cuja “dedicação constante e cuidadosa” a Bíblia chegou até nós. Evidentemente, antes deles vêm os primeiros escribas e, a seguir, os copistas, massoretas etc.

Quanto à “Introdução”, de apenas três páginas, não se trata de Introdução à Bíblia como tal, nem ao Antigo nem ao Novo Testamento, como também não há qualquer Introdução a nenhum livro especificamente. A “Introdução” se restringe às características desta “Nova Versão Transformadora” (NVT), que os responsáveis assim definem: Ela, a NVT, “é o resultado de um projeto iniciado em 2010 pela Mundo Cristão, juntamente com um comitê de tradutores especializados nas línguas originais em que o texto bíblico foi redigido. O objetivo, desde o princípio, foi produzir uma versão fiel e acessível, que comunicasse sua mensagem aos leitores de hoje de modo tão claro e relevante quanto os textos originais a comunicaram aos leitores e ouvintes do mundo antigo” (p. IX).

Quanto à “filosofia e metodologia da tradução”, os tradutores levaram em conta “tanto aspectos da equivalência formal como da equivalência dinâmica”. O resultado, acreditam, “é uma tradução exegeticamente precisa e idiomaticamente eficaz”.

Quanto ao “processo e equipe de tradução”, informam que “o projeto tomou como ponto de partida os métodos de tradução da edição mais recente da New Living Translation (NLT), tradução em língua inglesa publicada pela Tyndale House Publishers.

Quanto a “questões de tradução”, advertem que procuraram “deliberadamente oferecer um texto que pudesse ser entendido com facilidade por um leitor típico da língua portuguesa [brasileira?] contemporânea. Explicam como fizeram com os pesos e medidas antigos, valores monetários, calendário lunar, linguagem metafórica, linguagem inclusiva (p. X).

Quanto à “coerência léxica na terminologia”, advertem que traduziram “certos termos das línguas originais sempre da mesma forma, especialmente nas passagens sinópticas. E, quanto às “notas de rodapé”, bastante sucintas e, praticamente, todas de crítica textual, adiantam que, quando um caso de tradução de forma dinâmica o exige, a nota permite que o leitor confira a sua fonte literal (p. XI).

Agora, algumas observações pontuais, após uma leitura muito rápida de algumas passagens: 1) Em Gn 2,21 é mantida no texto a tradução tradicional “costela”, embora na nota apareça a alternativa “uma parte do lado” do homem. Não é “uma parte do lado”, mas “um dos lados” do homem.[1] 2) Em Gn 18,19: em vez de “o que é certo e justo”, parece-me melhor, mais literalmente: “a justiça e o direito”, hendíade que é frequente nos profetas. 3) Em Ex 3,15, a nota explica que o sagrado tetragrama é aí transliterado como “Javé”, mas normalmente é traduzido como “SENHOR”. Penso que seria melhor transliterar como o faz a Bíblia de Jerusalém, “Yahweh”, mantendo certa distância do nome sagrado. A forma “Javé”, mais simples, a meu ver se assemelha demais à de um “José” qualquer. 4) Em Ex 4,2, a tradução de matteh deveria ser “bastão”, “cajado”, não “vara”. A propósito, em Is 10,5 e 15 encontra-se o mesmo termo traduzido corretamente como “bastão” e “cajado”, não “vara”, que aí é shebet. 5) No Sl 136, a tradução de hesed por “amor”, no refrão repetido a cada versículo, mereceria uma nota: hesed significa também “misericórdia”, “bondade” etc. 6) Em Pr 5, o título “mulheres imorais” emprega o adjetivo “imoral” com o sentido restrito de “imoral sexualmente”, quando a “moral” é mais ampla. 7) Em Is 5,1, o cântico da “vinha” virou cântico do “vinhedo”, por que? Em Is 27,2, o mesmo termo virou “videira”, que acertadamente aparece em Jo 15,1. 8) Em Os 4,2a, a tradução apresentada não corresponde ao texto original e é equívoca, pois dá a impressão de que o profeta esteja fazendo uma denúncia ritual – o “não cumprimento de votos” –, quando o que ele denuncia é “perjúrio e mentira”, ou, “jurando e não cumprindo”, isto é, uma denúncia social, como no restante do versículo.[2] 9) No texto das bem-aventuranças em Mt 5, a tradução “pobres de espírito” é equívoca e ignora o artigo: tô pneumati. Melhor, literalmente: “pobres no espírito”. Em 5,5, traduzir praeîs por humildes? Literalmente é “mansos”, ou seja, não-violentos. Em 5,6 faltou o artigo: “fome e sede da justiça”, termo temático em Mt. 10) Em Mc 1,14-15, não seria melhor manter o singular do original: a boa-nova? 11) Em Lc 1,48, o original fala em “humilhação”, não “humildade”. 12) Em Jo 2,4a, a tradução “isso não me diz respeito” não corresponde ao original, que nega, no momento, o relacionamento entre Jesus e sua mãe: “o que há de comum entre nós?” A aporia se resolve na cruz, quando Jesus reconhece a “mulher” como “mãe” do discípulo (Jo 19,25-27). 13) A multiplicação dos pães, em Jo 6, vem indevidamente qualificada, no título, como “primeira”. João desconhece outra. 14) Em Jo 20,17, o “não se agarre a mim”, traduzindo mê mou háptou, é um pouco exagerado. Creio que basta “não toque em mim”. 15) Em Ap 6,9, em vez da tradução literal “as almas de todos os que…”, por que não, “as pessoas…”, ou, simplesmente, “vi todos os que haviam sido mortos…”? 16) Em Ap 21,3, o texto grego não diz “está no meio do seu povo”, mas “está com os homens”, ou seja, “com a humanidade”… “e eles serão os seus povos”, não “o seu povo”.[3]

Certamente, uma leitura mais demorada encontrará outras “observações pontuais” e, ainda, muitas delas, positivas. Creio que todos nós, que amamos a Bíblia, devemos congratular-nos com a Mundo Cristão por esta “Nova Versão Transformadora”. E podemos – pessoalmente, faço-o com gosto – subscrever o que se lê na contracapa: “A NVT resgata o prazer na leitura da Bíblia Sagrada, graças à cuidadosa escolha de palavras no português contemporâneo que expressam com a máxima fidelidade os textos escritos em suas línguas originais, proporcionando o entendimento da palavra de Deus com extraordinária clareza”. Que essa leitura prazerosa possa, realmente, ser “transformadora”.

Ney Brasil Pereira*

In memoriam.

[1]. Cf. PEREIRA, N.B. Costela ou lado de Adão, em Gn 2,21-22? Um texto de S. João Crisóstomo. Encontros Teológicos, Florianópolis, a. 56, n. 2, p. 171-175, 2010.

[2]. Reconheço as dificuldades de tradução deste v. 2, como demonstro em PEREIRA, N.B. O manifesto ecológico de Os 4,1-3. Encontros Teológicos, Florianópolis, a. 72, n. 3, p. 139-147, esp. p. 140 e 144, 2015.

[3]. Assim, em NESTLE-ALAND e, também, na Nova Vulgata.

* O Autor foi Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (1973), membro da Pontifícia Comissão Bíblica (2002-2013) e professor do ITESC, hoje, FACASC, em Florianópolis, Santa Catarina.



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