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Geral - 12/06/2017

BEUTLER, Johannes. Evangelho segundo João. Comentário. Trad. de Johan Konings. São Paulo: Loyola, 2015, 550 p., 160 x 230mm – ISBN 978-85-150-4326-2

Antes de tudo, a síntese do livro, que se lê na contracapa: “A presente obra é a tradução do mais recente e abrangente comentário científico ao Evangelho segundo João, publicado na Alemanha em 2013. Apresenta o Quarto Evangelho como testemunho do primeiro século cristão, com raízes nas escrituras de Israel e na tradição cristã antiga, nomeadamente, nos evangelhos sinópticos de Marcos, Mateus e Lucas. A partir de uma ampla consideração das publicações clássicas e recentes, o autor une à análise histórico-literária e semântica o reconhecimento das estruturas narrativas englobantes que estruturam o texto do evangelho tal como nos foi conservado. Também leva em conta o desenvolvimento intrajoanino que resultou da releitura do texto em função de novas necessidades do público leitor. A partir daí abre-se o horizonte para a compreensão dos leitores hodiernos”.

Essa síntese deve-se ao tradutor da obra, Pe. Konings, que, na apresentação diz ainda: “A obra mostra sensibilidade pelas periferias do mundo, o que a aproxima do nosso continente, repetidas vezes visitado pelo Autor. O leitor latino-americano poderá assim desfrutar a riqueza de conteúdo e a clareza de método que caracterizam o livro. Destacamos os aspectos hermenêuticos, metodológicos e didáticos. Quanto à hermenêutica, transparece amiúde a busca da encarnação histórica na óptica de uma Igreja pobre e serva. Quanto ao método, aprecia-se a sistematicidade e a clareza com que são seguidos os diversos passos da exegese, servindo assim de escola para os muitos leitores que têm interesse bíblico, mas dificilmente encontram oportunidade de estudo avançado. Depois da riquíssima introdução geral, são tratadas as diversas secções, delimitadas segundo as indicações narrativas. Em cada secção, depois da tradução do texto bíblico, o Autor expõe (I) o contexto e a composição, (II) a exegese detalhada, com prioridade da abordagem sincrônica, completada pela diacrônica, e (III) finalmente a hermenêutica para a atualidade” (p. 9).

Pe. Johan Konings, o tradutor da obra, além de muitos outros trabalhos, é conhecido no Brasil pelo seu excelente comentário ao 4º evangelho, publicado, primeiro, por Vozes e Sinodal, no ano 2000, integrando o “Comentário Bíblico latino-americano”. Foi tão boa a acolhida que, já no ano 2004, saiu a segunda edição, com o mesmo título, publicada pela Loyola.[1] A meu ver, é um comentário que absolutamente não desmerece os grandes comentários europeus. Por isso mesmo, aguçou-me a curiosidade, sobre o novo comentário de Beutler, exatamente o entusiasmo com que o próprio Pe. Konings o traduziu e o recomenda ao leitor brasileiro.

O comentário começa com a Introdução de praxe, ocupando apenas 25 páginas (p. 13-38), num volume de 550 p., com o Índice de referências bíblicas (p. 493-510) e a Bibliografia (p. 511-550). Prefiro assim: uma Introdução sucinta, que forneça as informações essenciais, deixando os detalhes para o próprio comentário. A Introdução começa com um estudo da “natureza peculiar do 4º evangelho”, do qual Beutler diz que “não é antijudaico”, como parece. De fato, “nenhum Evangelho é tão fortemente marcado pelo judaísmo e pelas suas instituições” (p. 14). Por outro lado, observo eu, em nenhum outro evangelho são apontados tão insistentemente como adversários de Jesus “os judeus”, chamados de “filhos do diabo”, em 8,44, o que certamente não deixa de induzir ao antijudaísmo. Aliás, Beutler volta a tratar do assunto na p. 36. Quanto à “teologia característica” de João, ela se manifesta já no Prólogo, encontrando aí “sua expressão insuperável” (p. 15). Quanto à estrutura, depois de apresentar as propostas de vários autores, Beutler diz que “procura combinar os critérios de estruturação, considerando “elementos topográficos, cronológicos, litúrgicos, formais e conteudísticos” (p. 19).

Quanto à finalidade do 4º evangelho, é claro que está explícita no próprio enunciado do c. 20,31: para que creiais que Jesus é o Cristo… Discute-se, porém, se o sentido é, antes, para que continueis crendo, levando em conta o presente do subjuntivo (p. 22). Finalidade, portanto, ou missionária, para os que ainda não creem (aoristo do subjuntivo), ou de animação da fé nos que já creem, embora provavelmente se trate de ambas as finalidades. A propósito, senti falta da equiparação com o objetivo da 1ª carta de João, objetivo claramente de conscientização: Eu vos escrevo, a vós que credes… para que saibais que tendes a vida eterna (1Jo 5,13).

Quanto à “unidade literária e fontes”, Beutler resume as hipóteses de Bultmann e, quanto à dependência dos sinóticos,[2] diz claramente: “No presente comentário advogamos a dependência do 4º evangelho em relação aos três primeiros, embora isso tenha sido contestado ultimamente, de novo, no âmbito anglófono” (p. 25). E comprova: “Um dos argumentos mais fortes para a aceitação da influência sinótica em João permanece o gênero ‘evangelho’, pois é difícil pensar que ele tenha sido criado duas vezes simultaneamente” (p. 26). A meu ver, além da dependência em relação aos textos, é claro que há dependência de uma tradição comum, que João trabalha a seu modo, p. ex., o mesmo episódio da confissão de Pedro, apresentado de uma maneira no sinóticos e, em outro cenário, em João. Quanto à “origem histórico-religiosa”, é claro que a fonte principal de João é o Antigo Testamento, em que pese a hipótese de Bultmann sobre a “origem gnóstica” da matéria discursiva. De fato, “os textos gnósticos alegados são nitidamente mais recentes que o 4º Evangelho…” (p. 29). Quanto ao Antigo Testamento, senti mais vezes, ao longo do comentário, a falta de uma mais clara afirmação dessa dependência. A propósito, sou de opinião que “não se pode entender”, a título de exemplo, o capítulo 9º de João, sem levar em conta o texto de Is 6,9-10; e o capítulo 10º, v. 1-18, sobre o “bom” Pastor, sem levar em conta praticamente todo o capítulo 34 de Ezequiel; e a alegoria da Videira, em Jo 15, sem levar em conta o cântico da Vinha, de Is 5,1-7 etc.

Quanto a “autor, lugar e data da composição”, Beutler expõe a situação da pesquisa atual (p. 31-33), que continua indecisa sobre a identidade desse “João” ao qual se atribui o evangelho, e sobre a figura, real ou simbólica, do “Discípulo Amado”. De resto, diz Beutler, “do ponto de vista da abordagem científico-literária, a questão da mensagem do 4º evangelho é mais importante que a de seu autor” (p. 32). Quanto às três cartas de João, “um estudo mais penetrante de seu conteúdo leva ao resultado de que elas, a julgar por 1Jo 1,1-4, antes pressupõem o 4º evangelho do que o inverso” (p. 33).

Sobre a autenticidade do texto, Beutler informa que “na tradição manuscrita antiga, nenhum escrito do NT é melhor atestado que o Evangelho segundo João” (p. 33). Sobre a atualidade do 4º evangelho, Beutler ressalta que João convida “suas leitoras e seus leitores à confissão intrépida de sua fé, o que em muitas partes do mundo é um desafio extremamente atual. […] Esta finalidade vem à luz, sobretudo, através da estratégia narrativa, ressaltando as figuras exemplares que vivem a confissão intrépida: assim, o cego de nascença, no cap. 9º; Nicodemos, na sua evolução até participar abertamente do sepultamento de Jesus; ou Tomé, em 11,16, com a sua corajosa declaração: Vamos nós também, para morrermos com ele” (p. 37).

Quanto à sua própria metodologia, Beutler informa que ele retoma a orientação escolhida para seu comentário às cartas de João, apresentando, no início de cada secção a tradução do texto, reelaborada a partir da Einheitsübersetzung, a tradução ecumênica alemã de 1980.[3] Seguem os três passos, já mencionados acima. Quanto ao terceiro passo (III), o da hermenêutica, Beutler esclarece: “Procuramos ter diante dos olhos as leitoras e os leitores que, conscientemente, se veem confrontados com as tensões do momento presente nos campos social, cultural, religioso e político. Também este tipo de leitura pode ser ‘leitura espiritual’, isto é, na linha da promessa do Senhor em 16,13: Ele, o Espírito da verdade, vos conduzirá em toda a verdade…” (cf p. 38).

Passemos agora ao Comentário. O Autor divide o texto de João em 5 secções: 1) A Palavra de Deus entra no mundo: 1,1–4,54, desde o Prólogo até o segundo sinal em Caná; 2) Jesus se revela a seu povo: 5,1–10,42, desde a cura do paralítico na festa das Semanas até a retirada de Jesus no Além-Jordão, após a festa de Dedicação; 3) Jesus a caminho da Paixão: 11,1–12,50, desde a ressuscitação[4] de Lázaro até o retrospecto da obra de Jesus e o último apelo à fé; 4) O adeus de Jesus: 13,1–17,26, desde o lava-pés até a oração de Jesus na sua despedida; 5) A “hora” de Jesus: paixão, morte e ressurreição: 18,1–20,31, desde a detenção de Jesus e o processo dos judeus até as aparições do Ressuscitado a seus discípulos. Por fim, o Epílogo (21,1-25). Quanto à amplíssima Bibliografia, que ocupa 39 páginas (511-550), divide-se em “Fontes”, “Comentários” (desde o de Orígenes, o mais antigo, até os mais recentes), e “Outra literatura”, livros e artigos, entre os quais, 49 títulos do próprio Beutler. As notas de rodapé, fundamentando cientificamente as posições do Autor, são numerosíssimas: 223 na 1ª secção, 265 na 2ª seção, 76 na 3ª secção, 173 na 4ª secção, 164 na 5ª secção, e 50 no Epílogo.

Entre as observações pontuais que fiz, começo manifestando minha estranheza quanto a certas lacunas, a meu ver importantes, no conjunto do comentário do Prólogo, p. 41-60: 1) creio que valeria a pena chamar a atenção para os três empregos do Lógos nos escritos joaninos: o Lógos criador, em Jo 1,1-4; o Lógos da vida, na 1Jo 1,1; e o Lógos toû Theoû, justiceiro/vingador, no Ap 19,13, creio que correspondendo ao Lógos “que julgará no último dia” (Jo 12,48); 2) não vi uma referência à força dinâmica da “palavra”, sem a qual não há história, a partir do primeiro “E Deus disse”, em Gn 1,3! A palavra, como “corporificação” do pensamento e da vontade, em nossa existência quotidiana; a palavra que, segundo acredita o centurião (cf Mt 8,8 e Lc 7,7), basta para realizar o milagre…; 3) penso que o comentário de 1,14 não explorou devidamente a polissemia e o paradoxo do Lógos fazendo-se sarks;[5] 4) por último, bem mais que da filosofia grega, o Lógos de João depende mesmo é do conceito veterotestamentário da Palavra de YHWH, “por meio da qual foram feitos os céus”: Sl 33,6. Quanto à própria tradução do final do Prólogo, 1,18: por que traduzir ho ôn eis tòn kólpon toû Patrós como “o que repousa sobre o coração do Pai”. Primeiro, porque não é “coração”, mas “seio”, “intimidade”… e, depois, a preposição eis indica movimento. De onde, então, esse “repouso”? Acontece que essa interpretação retorna no final do comentário sobre o versículo, inclusive justificando-a com expressão “paralela” em 13,25: “Quanto ao lugar ‘sobre o coração’ do Pai, cf. o Discípulo Amado, que, segundo 13,25, na ceia terá um lugar semelhante junto ao coração de Jesus[6] e será o seu comunicador” (p. 59). Novamente, o texto original não fala de “coração”, mas de “peito”, em grego, stêthos, e a preposição é epí com acusativo, indicando movimento, não repouso…

Na p. 65, pouco abaixo da metade da página, quanto ao “desatar a correia da sandália” de Jesus (1,27), creio que valeria a pena lembrar e pelo menos discutir a hipótese, para mim plausível, de P. Proulx e L. Alonso-Schökel, sobre a possível alusão à lei do levirato.[7] Na p. 67, no comentário a 1,32, achei muito pobre, e até superficial, o que Beutler diz sobre a peristerá: “A imagem da pomba como símbolo do Espírito Santo é tradicional e mostra novamente a dependência do evangelista de tradições semelhantes”. Em que sentido a imagem é “tradicional”? E que “tradições semelhantes” são essas, uma vez que elas são transmitidas só pelos três sinóticos? E o que significa essa imagem, uma vez que é a única passagem, em toda a Bíblia, e só nos quatro evangelhos, e só na cena do batismo de Jesus, que aparece a pomba como símbolo do Espírito? Convencido da importância dessa imagem, que predomina na iconografia e na devoção popular, escrevi um longo artigo a respeito.[8]

Na p. 80, a tradução de 2,4 – “que desejas de mim?” – não me parece corresponder ao original ti emoi kai soi, literalmente, “que há entre mim e ti?”, que sempre implica repulsa, p. ex. em 1Rs 17,18, ou negação de vínculo entre dois interlocutores, como em Jz 11,12 etc. Aqui, em contraste com 19,25, Jesus põe em xeque a maternidade de Maria (!), reconhecendo-a, porém, em outra dimensão, na sua primeira palavra no alto da cruz: Mulher, eis aí teu filho. Estranho que Beutler não tenha feito essa relação, tão clara, e mariologicamente tão importante, entre 2,4 e 19,25. Na p. 82, no comentário a 2,5, não me parece que Maria “dá ordem aos que…” Ela sugere, inclusive com base em Ex 19,8 (melhor do que, conforme à Bíblia de Jerusalém, em Gn 41,55), a atitude de prontidão do povo no Sinai: Faremos tudo o que Senhor nos diz.

Na p. 91, Beutler afirma que, na ação de Jesus descrita em 2,14-15 (expulsão dos vendilhões do Templo), “não se trata de uma abolição do culto”. É mesmo tão claro que “Jesus não quer abolir os sacrifícios”? Nem à luz de Os 6,6 e de tantos outros textos proféticos que rejeitam o culto sacrifical? Na p. 98, em cima, não entendi a contraposição aí feita entre a antropologia de Paulo e a de João. Para João, a “carne” que “nada vale” (6,63), no entanto, é assumida pelo Lógos. Não na sua pecaminosidade (Paulo), mas na sua fraqueza. A contraposição é semelhante à que faz Isaías, querendo dissuadir Ezequias de uma aliança com o Egito: O egípcio é homem, não Deus; seus cavalos são carne, não espírito (Is 31,3).

Na p. 271, no v. 33, como também no v. 38, do capítulo 11, a tradução do enebrimêsato to pneumati, como “ficou interiormente comovido”, está fraca: não condiz com a irritação visível, a agitação demonstrada exteriormente, que o verbo exprime. No v. 35, o “irrompeu em lágrimas” ficou forte demais para o edákrysen. Não é melhor, simplesmente, “chorou”, ou, menos bem, literalmente, “lacrimejou”? Na p. 284, no final da nota 27, quanto à opinião de Moloney, interpretando como causa da irritação de Jesus a “generalizada falta de fé”, penso que o que irritou Jesus foi, antes, todo aquele sofrimento causado pela morte. No caso, a morte de Lázaro.

Nas páginas 324-325, quanto às duas interpretações do lava-pés, a “soteriológica”, deixar que Jesus se abaixe, ele humilhando-se, lavando nossos pés, e a interpretação “ética”, aprender dele, a seu exemplo, a lavar-nos os pés uns dos outros, eu gostaria de uma clareza maior, como a que percebi já na segunda edição do primeiro comentário de J. Konings.[9] Aliás, essa dupla interpretação aparece melhor na síntese da p. 328.

Na p. 391, nas duas alíneas finais, comentando 17,3, penso que Beutler não ressaltou suficientemente o sentido decisivo do “conhecer o único Deus verdadeiro”. A meu ver, longe da influência de “textos semelhantes na gnose ou no helenismo”, penso que a fonte desse “conhecer” está claramente nos profetas, especialmente em Oseias, sempre aquele Os 6,6: nesse versículo capital, está claro o que Deus quer de seu povo: da ‘at elohîm, e não animais queimados! Nesse v., o “conhecimento de Deus” equivale, é paralelo, ao hesed, isto é, é um conhecimento ético, cuja falta – demonstrada pela inobservância da segunda taboa da Lei (Os 4,2) – provoca o desastre ecológico denunciado em Os 4,3, provocando ipso facto o perecimento de “meu povo” (Os 4,6).[10] Este sentido ético, prático, do “conhecimento de Deus”, retorna também, claramente, na primeira carta de João: Quem diz que conhece a Deus, mas não observa seus mandamentos, é mentiroso… (1Jo 2,4).

Na p. 435, pela metade da página, entre os “elementos centrais do relato sinótico da paixão” que estão “totalmente ausentes de João”, segundo Culppeper,[11] esse autor cita, em sexto lugar, o “grito de desespero” de Jesus, que está em Marcos e Mateus. O fato, porém, é que se trata, antes de um “grito de abandono”, não de desespero, iniciando o Sl 22, que termina num belo hino de ação de graças. Como é que pode ser “desespero”? Na p. 462, comentando o texto de 20,23 sobre a autoridade de “perdoar os pecados”, conferida aos discípulos, Beutler lembra com justeza que “essa autoridade corresponde à missão messiânica de Jesus, o Cordeiro que tira o pecado do mundo, segundo 1,29”. Penso que se deveria realçar que esse texto não é “apenas” comprobatório do sacramento da penitência, segundo Trento,[12] mas é mais, inserindo a autoridade dos discípulos no conjunto da luta da Igreja – em nome e como continuadora de Cristo – contra o pecado, da qual o sacramento é a expressão ritual.

Quanto ao texto problemático de 20,17, isto é, a palavra do “Jardineiro”, o Ressuscitado, a Maria Madalena, dizendo que “ainda não subiu” para junto do Pai… e que “está subindo”…, Beutler expõe e discute as dificuldades do texto, sem, porém, resolvê-las. O “problema” ou, digamos, o fato é que, para João, ao longo de seu evangelho, o enaltecimento do Filho do Homem na Cruz é a sua glorificação, ou seja, exaltação, “subida” para o Pai, aonde estava antes (cf. 6,62: a “subida” que vai “escandalizar”, exatamente porque através da cruz!). Como é, então, que “ainda não subiu” e “vai subir”? Nesse sentido, chamou-me a atenção o artigo de José Miguel Garcia Perez, publicado em 2015,[13] ao qual, portanto, Beutler, que publicou seu comentário em 2013, não teve acesso. Garcia propõe uma solução desta crux interpretum, argumentando com o substrato aramaico do texto joanino. Sintetizei sua posição num meu artigo,[14] esperando, sinceramente, não estar fazendo “eis-exegese”, em vez de verdadeira ex-egese.

Antes de terminar, cito o final do comentário: “O 4º Evangelho não termina na palavra de encargo de Pedro, mas no apelo para o seguimento e na proclamação do Discípulo Amado como testemunha fiel e fidedigna, cujo livro mantém firme e segura a ligação a Jesus. A contribuição permanente de Jo 21 para o presente e o futuro da Igreja pode estar nesta mútua complementação de palavra, sacramento, e múnus” (p. 492).

Num comentário tão amplo, tão fundamentado em exaustiva bibliografia, haveria certamente muito mais tópicos a destacar, a discutir, a avalizar. Espero ter dado ao leitor uma ideia da riqueza de seu conteúdo, para que, após atenta leitura pessoal, chegue à conclusão do quanto devemos ao Pe. Konings, por ter, através do seu trabalho de tradução, colocado à nossa disposição esta obra de Johannes Beutler.

Ney Brasil Pereira*

In memoriam.

[1]. KONINGS, Johan. Evangelho segundo João: amor e fidelidade. Petrópolis: Vozes, 2000, 452 p. (Comentário bíblico latino-americano); ID. Evangelho segundo João: amor e fidelidade. São Paulo: Loyola, 2005, 404 p. (Comentário bíblico latino-americano).

[2]. O tradutor prefere a forma “sinópticos”.

[3]. Nesta edição brasileira, o tradutor, Pe. Konings, apresenta uma versão própria, adaptada à exegese do Autor do comentário.

[4]. É interessante o emprego desse termo, da medicina, distinguindo o que aconteceu com Lázaro – a revivificação de um cadáver – daquilo que aconteceu com Jesus e que, esperamos, acontecerá conosco.

[5]. Cf. a contraposição entre sárks e pneûma em Is 31,3a.

[6]. Grifo meu.

[7]. Não consegui identificar o artigo dos autores mencionados, publicado na revista do Pontifício Instituto Bíblico, mas encontrei no Blog dos Pavonianos, de abril de 2011, esta interessante síntese, de CRISTINO, Thiago: “A Esposa do Messias (3,27-30): é uma comunidade de caráter nupcial, bem acentuado por João Batista, quando diz: Quem tem a esposa é o esposo; mas o amigo do esposo, que está ao seu lado e o ouve, muito se alegra com a voz do esposo (v. 29). Aqui fica mais claro o papel de João Batista em relação a Jesus. Este é o esposo messiânico e a comunidade escatológica é a esposa de Cristo. Tal imagem é empregada no Antigo Testamento para descrever a relação do Rei com seu Povo, por exemplo, Aquitofel promete a Absalão levar todo o povo para ele, como vem a esposa ao seu esposo (2Sm 17,3)”. Segundo a tese de P. Proulx e L. Alonso-Schökel, o “desatar a correia da sandália” de Jo 1,27 seria um traço do direito matrimonial hebraico relativo ao levirato (cf. Dt 25,5-10). Neste sentido, João Batista não é digno, segundo a lei do levirato, de apropriar-se do papel de “Esposo” da nova Aliança.

[8]. PEREIRA, N.B. A pomba e o Espírito. Encontros Teológicos, Florianópolis, v. 13, n. 24, p. 24-34, 1998.

[9]. KONINGS, J. Encontro com o Quarto Evangelho. Petrópolis: Vozes, 1975, p. 59-61. Esta segunda edição é a revisão e complementação da 1ª edição, preparada e distribuída pela Livraria interna do Regional Sul III da CNBB, Porto Alegre, em 1973.

[10]. Cf. PEREIRA, N.B. O manifesto ecológico de Oseias 4,1-3. Encontros Teológicos. Florianópolis, v. 30, n. 72, p. 139-147, 2015.

[11]. Autor citado na nota 69.

[12]. DENZINGER-HÜNERMANN, Compêndio dos símbolos, declarações e definições de fé e moral. trad. J. Konings. São Paulo: Paulinas; Loyola, 2007, n. 1670.

[13]. GARCIA PEREZ, J.M. La aparición de Jesús Resucitado a María Magdalena (Jo 20,11-18). Estudios Bíblicos, v. 73, n. 1, p. 57-77, 2015. O A. é professor da Universidad San Damaso, em Madrid.

[14]. PEREIRA, N.B. “Não me toques” ou “Não me busques”? Uma nova tradução de Jo 20,17? Encontros Teológicos, Florianópolis, v. 30, n. 70, p. 179-185, 2015.

* O recenseador foi Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (1973), membro da Pontifícia Comissão Bíblica (2002-2013), e Professor do ITESC, hoje, FACASC, Faculdade Católica de Santa Catarina, Florianópolis, Santa Catarina.



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