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Geral - 12/06/2017

BASURKO, Xabier. O canto cristão na tradição primitiva. Trad. de Celso Márcio Teixeira. São Paulo: Paulus, 2005, 254 p, 137 x 200mm – ISBN 85-349-2395-7.

Ouve-se com agrado enquanto se canta,

penetra na alma enquanto deleita,

retém-se com facilidade, já que se repete com frequência,

e consegue arrancar das mentes humanas pela suavidade do canto

o que não podia a austeridade da lei

(Nicetas de Remesiana)

Não é fácil discorrer sobre assuntos referentes a uma história remota e com pouca documentação musical. No caso do cristianismo, o grau de dificuldade pode ser considerado ainda maior. Trata-se, sim, trata-se de uma tradição religiosa que se consolidou hegemônica em séculos posteriores e que foi responsável por produzir e preservar a maior parte dos documentos alusivos a seu respeito, mas não possuímos informações muito precisas sobre os três primeiros séculos. Só dispomos de esboços de reconstrução historiográfica, a partir de referências secundárias e/ou comparações com outras culturas. A própria literatura bíblica do Novo Testamento é considerada como a documentação mais antiga do cristianismo nos primeiros séculos – ainda que sua narrativa tenha circulado por várias décadas unicamente por meio da oralidade.

É nesse sentido que, dedicando-se exclusivamente aos séculos de II a V dC, a obra de Xabier Basurko parece ser uma das principais fontes de referência sobre, nos termos de José Weber, a música ritual da “época de ouro das primeiras comunidades cristãs”. Apesar de ter sido publicado originalmente em 1964, em plena efervescência provocada pelo Concílio Vaticano II, para não mencionar os ainda presentes ares do Movimento Litúrgico, sua tradução para o português, empreendida por Celso Mário Teixeira, apenas se concretizou em 2005, integrando a coleção Liturgia e Música, da Editora Paulus, coordenada, desde sua criação, por Joaquim Fonseca. Dez anos passados desde então, a obra ainda se firma como um importante instrumento de auxílio para pesquisadores e estudantes de teologia.

Espanhol, doutor em teologia litúrgica e autor de outros livros sobre liturgia e música litúrgica, nesta obra, Basurko parte da tentativa de reconstruir o panorama da sociedade cristã primitiva, situando o lugar que a música ocupou naquele contexto, por meio de detalhadas análises da literatura patrística. Não é difícil, como é sabido, encontrar referências à música em textos dos padres dos séculos III e IV. Exemplo disso é o relato descoberto em uma das homilias de São João Crisóstomo, mencionado por Basurko, no qual fica evidente o papel integrador conferido ao canto e à música, de maneira particular ao canto dos salmos: “desde que o salmo cai no meio de nós, ele reúne as vozes diversas e forma de todas elas um cântico harmonioso: jovens e velhos, ricos e pobres, mulheres e homens, escravos e livres, fomos arrastados em uma só melodia” (João Crisóstomo apud Basurko, 2005, p. 101). De fato, como demonstra o Autor, são abundantes as menções ao papel desempenhado pela música no contexto das primeiras comunidades. A exemplo de João Crisóstomo são acrescentados vários outros, tais como Ambrósio e Agostinho, Nicetas de Remesiana, Proclo, Basílio, Atanásio, além, é claro, dos Clementes e Gregórios.

Por meio de fragmentos escolhidos, Basurko nos ajuda a recordar importantes elementos da concepção musical judaico-cristã, entre os quais e, quiçá, de importância salutar, o lugar dos salmos como hinário por excelência no meio cristão e o uso dos instrumentos como adereços ao canto do povo, sobretudo a importância da cítara – ainda que, na maioria dos relatos, fosse ressaltado o valor privilegiado do canto e, portanto, da voz. Na verdade, em muitos aspectos podemos notar a influência da cultura grega também sobre o cristianismo, em se tratando de música, particularmente no que respeita ao uso dado aos instrumentos de corda. Como aponta Basurko (2005, p. 64), “uma interessante interpretação espiritual encontramos em Nicetas de Remesiana. Segundo ele, não foi o som da cítara de Davi que expulsou o espírito maligno que agia em Saul, mas o poder de Cristo. Na realidade, a cítara de Davi com suas cordas estendidas sobre a madeira era o símbolo de Cristo crucificado e era também a paixão do Salvador que Davi cantava naquele momento”. Note-se que as cordas da cítara eram fabricadas a partir das vísceras de cordeiros e, em seguida, dispostas sobre o corpo do instrumento feito em madeira. Tomando, portanto, as vias da interpretação alegórica, a cítara (como também o violino e os demais instrumentos de corda em tempos posteriores) poderia ser tomada como o emblema da Paixão de Cristo.

Tal referência, no entanto, não pode, por si só, indicar a prevalência dos instrumentos em detrimento do canto da assembleia, como acima indicamos. Ao contrário, como indica Basurko (2005), caso nos perguntássemos acerca das principais características da prática musical cristã nos primeiros séculos, poderíamos responder: em primeiro lugar o estreito vínculo estabelecido entre a música e o texto, na maioria das vezes extraído da narrativa bíblica, e, por conseguinte, e não menos importante, o privilégio da melodia – que, na maioria das vezes, era entoada por toda a assembleia – e da voz. Vejamos, por exemplo, como o mesmo Nicetas de Remesiana trata este assunto: “ela [a melodia] deve estar dotada de certas características para que possa prestar um serviço adequado no culto cristão. […] A melodia do cristão deve ser tal que em sua própria composição faça mostrar a simplicidade cristã e provoque ao mesmo tempo a compunção do coração nos ouvintes” (Nicetas de Remesiana apud Basurko, 2005, p. 39).

O canto da assembleia também é um tema sempre presente nos textos de Agostinho: “com exceção dos momentos em que se fazem as leituras, em que se prega, em que o bispo reza em alta voz, em que o diácono inicia a ladainha da prece comum […], existe algum instante em que os fiéis reunidos na igreja não devam cantar? Na verdade, não vejo o que eles poderiam fazer de melhor” (Agostinho apud CNBB, Estudo 79, n. 254). De maneira geral, estamos diante do valor do canto da assembleia, primeira protagonista da ação ritual cristã nos primeiros séculos – ainda que, nesse contexto, unido ao canto dos salmos, outras formas musicais já esboçassem seu uso nas celebrações do Ocidente, entre elas o hino.

Em seus nove capítulos, Basurko consegue passar por praticamente toda a patrística, enfatizando os diferentes usos dados ao canto por parte das comunidades cristãs. Visando mais uma ordenação didática que propriamente cronológica, passa por temas de variados interesses. Em primeiro lugar, o uso da melodia como serviço à Palavra, no qual destaca o papel da Palavra de Deus como base para o canto cristão. Em seguida, trata o poder espiritual do canto. Nessa seção faz uma abordagem muito interessante sobre o efeito catártico do canto sobre os males espirituais, donde podemos retirar boas intuições sobre os efeitos e usos terapêuticos do canto já nos primeiros séculos depois de Cristo. Vejamos, a título de ilustração, essa citação de Proclo, mencionada por Basurko: “saudável é sempre o canto dos salmos, o qual acalma como o mel de sua melodia os afetos desordenados. Como a podadeira para os espinhos, assim é o salmo para a tristeza. Pois o salmo suavemente cantado amputa as dores do espírito, corta pela raiz a tristeza, limpa-a de toda perturbação, recria os oprimidos pela dor, provoca a compunção nos pecadores, excita à piedade” (Proclo apud Basurko, 2005, p. 60).

Em cada seção, devemos confessar, um tema mais interessante que o outro! Aos dois primeiros capítulos seguem os demais, cuja abordagem toca assuntos como a relação entre o canto interior do coração e o canto da vida – na qual aparece uma menção ao jubilus agostiniano –, o canto comunitário como expressão de comunhão eclesial, a relação entre o canto cristão e o canto não cristão – um conflito também enfrentado pelas comunidades primitivas, momentos em que a influência judaica de repulsa ao uso de instrumentos se fortaleceu também entre os cristãos –, a leitura de viés alegórico entre Antigo e Novo Testamento – mormente entre as figuras de Moisés e de Cristo –, o canto como demonstração da unidade cósmica do Reino de Deus e, por fim, a dimensão escatológica do canto da terra como antecipação do canto celestial.

Em cada parágrafo vemos novamente atestada a seriedade do Autor no enfrentamento dos temas e seu cuidado em sempre referenciar as citações utilizadas, oferecendo, inclusive, alguns fragmentos em sua língua original, postos em nota de rodapé. Cuidados como este acrescentam o valor da obra, o que não poderia ser diferente, haja vista seu Autor.

Passados mais de dez anos desde sua publicação em português, o trabalho de Basurko continua, pouco a pouco, penetrando nos círculos de pesquisa da área de teologia litúrgica, com especial ênfase ao canto e à música. Descoberto por áreas como a história e as ciências da religião, tem prestado sua contribuição como um dos poucos trabalhos que tratam os primeiros séculos do cristianismo publicados em língua portuguesa – e, quem sabe, o único com interesse exclusivo no canto cristão. Reduzindo nosso foco, trata-se, certamente, de uma leitura essencial para teólogos, liturgistas, historiadores do cristianismo, como sobremaneira, é claro, para musicólogos, instrumentistas, compositores e, por que não, para todos os que se dedicam ao serviço de animação litúrgica em suas comunidades.

José Reinaldo Felipe Martins Filho[1]

Rua Campos Belos, Qd. 122, Lt. 06, Apto. 208 B

74.915-400 Goiânia, GO/BRASIL

E-mail: jreinaldomartins@gmail.com

[1]. Graduado em Filosofia e em Teologia; Mestre em Música (2016) e em Filosofia (2014), ambos pela Universidade Federal de Goiás; Doutorando em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás; Professor no Instituto de Filosofia e Teologia de Goiás; e atual coordenador da Comissão de Pastoral Litúrgica da CNBB – Regional Centro-Oeste.



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